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Arte: André Bonani

Pequena roqueirinha,

Não foi Television, MC5, Iggy Pop, Lou Reed, New York Dolls, Dylan ou Stones.

Nem Paul McCartney, Sonic Youth, Pixies, Jesus and Mary Chain, Radiohead, Pavement, Devo, Strokes, Arcade Fire, Cure ou Morrissey.

Também não foi Caetano, Gil, Chico, Gal, Bethânia, Tom Zé, Cássia Eller, Titãs, Novos Baianos, nem nada disso.

Trilha sugerida:

O melhor e mais inesquecível show da minha vida rolou durante um pequeno festival, aberto ao público, chamado Trespraum. Organizado pela Associação Cultural Cecília, o palco montado entre os prédios residenciais, bem no meio da rua, recebeu vária bandas do underground de SP. Entre elas Emicaeli, Patife Band e os headliners Autoramas.

Graças a chuva não conseguimos ver direito as duas primeiras. Na real, dos shows vimos pouco. Ainda assim, posso garantir, que a noite toda e principalmente os Autoramas foram foda.
Shows são experiência muito pessoais, né, punkzinha? Tem uma história clássica do Nirvana tocando no Brasil em 93. Reza a lenda que o João Gordo contou pro Kurt que Hollywood, além do nome do festival, era também a marca de cigarro patrocinadora. E, segundo a história, o Kurt, que já estava em uma fase bem complicada, ficou puto e decidiu zoar a coisa toda. Naquela noite, eles não chegaram até o fim de música nenhuma, trocaram de instrumentos entre si, fizeram muito barulho e versões irreconhecíveis de canções improváveis.

Nos bastidores, Anthony Kiedis, que tocava no mesmo festival, assistiu a tudo e saiu dizendo que foi uma das maiores experiências que presenciou na vida. (Assim como uma pá de fã até hoje – engraçado que esse show virou “o gol mais bonito que Pelé fez”. Meio que todo mundo fala que estava lá e viu com os próprios olhos a performance histórica).

Já o Dave Grohl, um dos três protagonistas daquele caos,  diz até hoje que foi o pior show de toda a carreira do Nirvana. Sei lá o quanto dessa história é real. Mas o ponto é que um mesmo show pode ser considerado muitas coisas a depender de quem opina. E mesmo um show pequeno, debaixo de chuva, pode ser o mais importante de uma vida. Justamente como foi essa noite no bairro de Santa Cécilia, ao som dos Autoramas. Devo ser justo, apesar de adorar a banda e ter sido de fato uma bela performance, o que mais me encantou foi a sua companhia, minha punkekinha.

Naquela noite foram muitas as primeiras experiências mágicas: Nosso primeiro show juntos ( tá, tirando o Palavra Cantada e afins). E também seu primeiro “pseudo crush”, o Cauê.

Numa onda pré- tinder, a coisa foi old school mesmo. Você e o pequeno se esbarraram na rua enquanto observavam enfeites de natal de uma casa. Compartilharam o mesmo interesse pelas luzinhas. Ele disse que eram as renas que ajudavam o Papai Noel. Você retrucou dizendo que eram os bambis. O Câue, mais experiente – no alto de seus 3 ou 4 anos- foi conciliador: decidiu que existem renas e bambis ajudando o bom velhinho a voar.  E assim, deu match e vocês selaram a amizade. Corriam de mãos dadas pelo show feito malucos enquanto eu e a mamãe tentávamos acompanhar.

Nessa toada,  romperam a rodinha e foram pra frente do palco dançar como se não houvesse amanhã. A Érika Martins, do Autoramas, cantava o hit do Little Quail “1, 2, 3, 4” e sacou que talvez fosse essa a única letra do repertório possível para vocês. Por isso, convidou a duplinha ao palco. E lá vocês ficaram pogando timidamente. Foi impossível não lembrar da primeira vez que invadi um palco, mil anos atrás, e como aquele momento mudou tudo em minha vida. Não sei se o seu primeiro mosh teve esse impacto em você, minha rockerzinha, mas em mim teve.

Pra sempre lembrarei que seu primeiro mosh foi direto nos braços do papai.
E isso, nem um show do Clash superaria.

Amor rock n roll,

Papai.

29.12.16