Trilha sonora sugerida:

-Oi, amor. Que roupa que ela tá?
-Coloquei o vestidinho da Minnie.
-Qual, o vermelho?!?
-É, com a botinha rosa. Tá linda.
-Meu deus, você colocou ela de vermelho?!?!
-Puta merda, o que foi que eu fiz?!? Tô voltando.
-Isso, corre.
-Vou colocar a blusinha amarela, tá?
-Amarela? Sério mesmo?! Não resolve muito, né?
-Tem razão, tem razão. Vou colocar o bodyzinho preto então.
-Não sei, preto….teve aquele papo de estar de luto por alguma coisa, não teve?
-Teve, teve. Melhor a camiseta branca então?
-Será? Branco da paz pode ser interpretado como uma afronta aos que querem guerra.
-Mas isso seria muito burro.
-Bom, olha nossa conversa toda. Razão não é lá a tendência do momento.
-Certo….cara, tá mó calor. E se ela for só de fralda mesmo?
-Hum, acho que não tem nada rolando contra naturistas, nudistas, né? Dá um google ae, “nudista coxinha”, “nudista petralha”.
-Acho que não tem nada.
-Tá, mas que cor tá a fralda?

Saímos do mercado eu e você, minha pequena. Com uma mão seguro a sua, com a outra empurro o carrinho de compras. Amarrado em volta do pescoço levo o “Cacacão” (seu macaco gigante de pelúcia). Na esquina, a roda do carrinho emperra em um buraco virando nossas compras no chão. Sigo tentando segurar o carrinho com uma mão sem soltar da sua com a outra. Com os pés tento controlar as compras rolando pelo chão. O Cacacão me sufoca e impede que consiga ver direito. Três cervejas longnecks resistem a queda e saem rolando pelo chão. Já estou desistindo delas, envergonhado e derrotado, quando um idoso casal vem me socorrer.

O senhorzinho segura o carrinho me deixando livre pra cuidar de você, das compras e do Cacacão. A senhorinha, com agilidade surpreendente, alcança as três cervejas.
Eu constrangido com a cena patética agradeço sem parar. Eles são só sorrisos. Te elogiam, você sorri. Elogiam o Cacação, ele também – como sempre- sorri.
Que casal simpático! Ele são fofos e pequenos. Aqueles casais que enchem de esperança os mais jovens.

Enquanto imagino eles caminhando de mãos dadas rumo à eternidade, da boca enrugada da simpática senhora vem a pergunta, “Mas e essa cerveja? É pró Lula, ou contra Lula?”
Meu Deus, pequena, o terror.
Por debaixo do Cacacão tento desvendar aquela senhora. Qual será a desse casal? São espiões, com toda certeza. Claro, daí a agilidade deles. Mas de que lado?
Ambos estão `a paisana. Nada de verde-amarelo, nada de vermelho. Ela poderia muito bem ser uma velhinha chapa do Zé Dirceu, como uma velhinha chapa do FHC. Não dá pra saber. Só sinto que nossas vidas dependem de minha resposta.

Tento sorrir. Tenho pouco tempo. Seja a velhinha treinada pela KGB,ou pela CIA, sei que pode nos trucidar ali mesmo. Ultrapassei o limite de tempo tolerado para uma resposta. Levantei suspeitas demais. Seguro sua mão com força e arrisco, “às vezes, uma cerveja é só uma cerveja”. Uma referência forçada ao charuto do Freud.
A senhora – competente espiã – é de difícil interpretação. De qualquer forma, após desejar boa noite, respiro aliviado enquanto eles arrastam seus lentos passinhos de mãos dadas rumo à eternidade.

….

De fralda você grita pelas ruas enquanto corre em direção `a casa da sua avó:
“Lula, tan, tan tan! Lula, tan, tan, tan!” Eu me desespero. Grito pra você parar. Você se assusta. Não entende nada e chora.
Desculpa, minha pequena. Mas às vezes não dá tempo de explicar que você ama seu tio Lula. E que seu tio Lula nunca foi presidente. Nem gosta de política, na verdade. Que o meu cunhado e seu tio Lula se amarra mesmo numas brejas artesanais e arquitetura.
Mas agora vejo, mais difícil do que explicar que um bebê não conhece o Lula ex-predisente é te explicar porque teríamos que explicar qualquer coisa pra estranhos.

Beijos coloridos e paranóicos,
Papai.
24.03.16