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-Cara, agora tamo nessa fase do desfralde.

-Sei bem como é.

-E por um lado, legal, não aguentava mais comprar fralda, trocar fralda, lidar com tanta merda, sabe? Mas por outro, parece que nesse processo é mais merda ainda. Piorou, saca? Merda pra todo lado.

-Ah, sem dúvida. A expressão “tô na merda” ganhará outros níveis, parça. Se prepara. Mas bicho, vou te falar que isso é só o começo.

-Como assim?

-Ah, eu acho que essa fase de trocar fralda, limpar bunda, achar merda no paletó, no cabelo, no nariz, enfim, tudo isso é só o preâmbulo. É só uma preparação pro que ainda vai vir: infância, adolescência, aí sim, que os filhos só fazem merda.

-ahah, entendi.

-Cê não vai acreditar no que esse aqui fez esses dias. (“Esse aqui” é o caçula, 5 anos.)

-Hum.

-Ele bateu na amiguinha dele, mano.

-Putz.

-É. E foi feio, cara. Ele meio que socou o nariz da menina.

-Nossa!

-Aí, cê imagina: eu indo lá, com mó cara de bosta, conhecendo os pais da menina, falando com os professores. Puta cagada.

-Nossa, imagino.

-Pedindo mil desculpas, morrendo de vergonha. Pensando onde caralhos ele aprendeu isso? Será que fiz merda? Será que sou muito agressivo perto dele? Será que foi no youtube? Na televisão? Uma merda sem fim, cara.

-É, nem imagino como deve ser ruim isso.

-Aí, falei com ele. Expliquei que não pode fazer isso. Toda aquela onda. Ele ficou bravo. Eu fiquei bravo. Falei pra ele pedir desculpas. Mas acho que nunca mais vou conseguir encarar aqueles pais, mano. Pelo menos, eles foram bem compreensivos.

-Cara, que será que é pior: teu filho bater em alguém ou apanhar de alguém?

-Puta merda, os dois são terríveis. Mas acho que o primeiro é pior. O moleque ser o culpado é foda. Mas é isso, merda eles vão fazer o tempo todo. Mas quer saber? Tava aqui pensando, pior são as merdas que nós fazemos e eles têm que lidar, saca? Tipo, já rolou o contrário, teve uma vez que a Teca – a mais velha – chegou da escola e disse que um fulaninho tava batendo nela. Mano, a vontade que eu tive era de ir lá e apavorar o merdinha, cê não tá ligado.

-Mas obviamente cê não fez isso, né?

-Obviamente. Mas sabe, a linha entre fazer uma merda dessa e não fazer é pequena. Eu realmente senti uma vontade genuína de tirar satisfação com o pirralho. Vontade real mesmo. Ok, não fiz. Mas fiz uma cagada grande esse dia, confesso.

-O que cê fez?

-Eu mandei ela revidar, bater de volta mais forte.

-Putz.

-É, não me orgulho disso. Mas sabe como é, primeira filha. Eu era praticamente um moleque na época. Quando ouvi que tinham batido nela perdi a linha. Disse, “bate de volta duas vezes mais forte e depois sai correndo”…hahaha

-Puta merda, mano. Que conselho cretino.

-Eu sei. Mó cagada. Depois fiquei com mó culpa. Pensei, meu deus, quem que eu tô criando aqui? Uma dessas comentaristas de portais na internet? Haha

-Exatamente.

-Aí, mudei. Chamei com mais calma. Expliquei que não era legal bater em ninguém. Que dá pra resolver conversando, a importância do diálogo e coisa e tal. E falei pra ela contar pras professoras também.

-Mandou ela dedurar, haha. Funcionou?

-Ah, depois eu soube que o menino era novo na escola. Tava sofrendo pra se adaptar, sabe? Hoje são mó amigos. E porra, eles deviam ter uns 3, 4 anos. As cagadas deles são normais. Fazem parte de todo o processo. Muito piores são as nossas. Nem se comparam, saca?

-É, o que é uma fralda comparada às merdas que vamos fazendo ao longo do processo, né?

-Exato. Porra, eu tô no terceiro filho e ainda não tenho ideia do que tô fazendo. Mas posso te falar, com o tempo, ficamos mais tranquilos.

-Jura?

-Mais ou menos, heheh. Na real, não é tranquilo a palavra, acho que aprendemos a viver mais de boa. Mas sabe qual o segredo?

-Tem um?

-Tem sim, eu acho. O segredo, é preparar as crianças pra nossas próprias cagadas. Quer dizer, tentar criar meios para não sofrerem tanto com nossos erros. Ensinar uma coragem só deles, que nem nós poderíamos arruinar. Eles pro mundo, sabe qualé? Pra não desmontarem, afundarem em traumas, ao longo dos erros que cometermos.

-Saquei. E como faz isso, de ensinar essa “coragem-evita-trauma”?

-Ah, isso já não tenho a mais puta ideia. Se você descobrir, escreve um livro.

07.07.17

ps: os diálogos aqui são fictícios e a primeira parte de uma série.