Trilha sugerida:

“O que o doutor Drauzio faria?”, pensei ao ouvir o despertador tocar às 05hs da manhã.

Era o único horário disponível pra correr e completar meu treino semanal. Mas fazia frio, tinha dormido muito pouco e, bem, eram cinco da matina! Em qualquer outra época da minha vida seria inconcebível, mas hoje, recorro ao septuagenário e maratonista doutor Dráuzio Varella e levanto, coloco os tênis de corria e vou à rua fazer meus 10 kms.

Foi assim que aconteceu, minha amorinha, num piscar de olhos, o doutor Drauzio virou meu grande referencial. Deixei pra trás Kurt Cobain, Sid Vicious, Jim Morrison e tantos outros gênios autodestrutivos. Minha onda agora é o Doutor Drauzio – e aqui, digo “doutor” como quem diz “super” antes do nome do herói.

Tá, eu sei como isso soa, bolachinha. Para você ele é apenas um senhor coxinha. Eu mesmo, quando pivete, o via assim. O cara usa camisa pra dentro da calça e fica enchendo a paciência alheia com a coisa do cigarro.

Mas pensa, prefiro ser um disfuncional gênio ou o Super Doutor Drauzio?
Um senhor saudável, corredor de maratonas, que escreve bem a valer, faz um jornalismo fera, troca ideia com presidiários, prostitutas e excluídos em geral, tem posições políticas coerentes, é chamado pra opinar (e o faz com sabedoria) sobre qualquer assunto, tira onda dos haters, parou de fumar e, de quebra, como se não bastasse tudo isso, tem como trabalho oficial o de “salvar vidas”.
(Esse parágrafo, escrevi imaginando um gif do Doutor Dráuzio, sabe? Bem, provavelmente quando você ler isso os gifs serão coisas ultrapassadas. Porém, suspeito que o doutor seguirá fazendo todas essas coisas. Ele deve viver até uns 189 anos correndo maratonas por aí).

Nesses tempos tão exasperados em que debater é arte quase extinta, dá sempre pra tirar o doutor como carta na manga. Não importa o quão imbecil e intolerante seja seu interlocutor, dá pra “varelizar” com qualquer um, pequenina. “Foi o doutor Drauzio quem disse” e pronto, lacrou!

Já haviam me avisado, ameixinha, ser pai te torna mais coxa mesmo. Devia ter percebido quando, por conta de dores nas costas, troquei meu surrado all star por um tênis de corrida. Depois, passei a evitar multidões, festivais, passeatas. Nos jogos de futebol, passei a preferir a “turma do amendoim” à “organizada”. E, por fim, me rendi ao pay per view. As minhas gírias são todas defasadas e patéticas tentativas de me manter atual, mora? No lugar de impulsos e doidera, longevidade e saúde viraram as qualidades a se almejar.

“Hope i die before i get old”?, “I don’t want to grow up”? É, acho que tudo isso ficou pra trás. Será que os Ramones gravariam algo como: “Now i want to see my daughter grow up and always be there for her, one two three!”ou “Twenty four hour a go i wanna be a healthy grown man!”?

Não vou colocar tudo na tua conta, meu amor. Estou fazendo trinta, as certezas tornam-se escassas quanto meus cabelos e aprendemos a lidar melhor com as dúvidas(acho). Faz parte do ciclo da vida mesmo. Meu Deus, agora papai é esse cara que fala de “ciclo da vida”. Puta merda, tá grave mesmo.

Veja, sempre amarei os punks, os junkies, os roqueiros, os “heróis que morreram de overdose” e todos os outsiders que produziram maravilhas, amaram e mudaram as coisas. Só sobrevivi por conta deles. Só escrevo por causa deles. ( Os punks me ensinaram, “faça você mesmo” e foda-se).
E sempre, sempre, amarei o Kurt, mas acho que chegou a hora de tirar seu pôster da parede. Onde será que encontrarei um do doutor Drauzio? Na galeria do rock, será?

Amor idoso,

Papai.
17.03.16