Cute Dog-  Daniel Clowes
iMAGEM: Cute Dog de Daniel Clowes.

Pequenina andarilha,

São Paulo, nossa cidade, é dura. Você logo e infelizmente vai perceber. Pessoas ofendem umas às outras o tempo todo quando estão em trânsito. E não precisa muito pra isso, não. Se andar de bike, é comunista “vai pra Cuba”. Se dirigir um carrão, é coxa e Miami te aguarda. Se arriscar um uber, periga ser espancado. Se optar pelo metrô ou busão, vai sofrer o novo preço da tarifa.
E a pé, pode ser atropelado por todos os outros anteriormente citados. Quer dizer, menos o metrô. Ser atropelado por um não é tão fácil, parece que o pessoal que governa se preocupou com isso e tratou de construir o menor número possível de linhas de metrô.

A cidade não foi pensada para pedestres e o fato de andarmos por aí causa uma estranha raiva no mais diverso tipo de gente.
Agora, o cenário muda completamente quando eu estou com você, minha rodinha. Não importa veículo, ou trajeto, o mundo sorri. A presença de uma criança fofa causa empatia tão linda e, devo dizer, até justa. Você é realmente a coisa mais fofinha que já andou por essas bandas e é quase impossível não sorrir ao te ver. Eu não consigo.

(Trilha Sonora:)

Costumo usar o seu carrinho pra fazer compras no mercado. Todos são simpáticos e solícitos até o momento em que descobrem não ter bebê nenhum no carrinho. Aí, ficam bravos. Parece que eu os enganei. Quase como se tivesse parado em uma vaga para idosos ou usasse uma cadeira de rodas sem precisar, sabe? Um dia te levei ao mercado e fomos festejados. “O bebê existe!”, disseram aliviados e, assim, voltei à categoria “paizão dedicado e querido”.

Quando andamos, todo mundo faz uma graça, é gentil. É uma maneira bem gostosa de viver, sabia?
Tão gostosa que acabei mal acostumado, quase viciado em gentileza. E não sou só eu quem curte essa onda, imagino. Até existe um adesivo bem popular que as pessoas colam nos seus veículos dizendo “Bebê a bordo”. O adesivo acaba servindo como um salvo conduto pra qualquer cagada que a pessoa vier a fazer. Quer dizer, quem em sã consciência começaria uma briga com um “bebê a bordo”. Em tese, um erro no trânsito deveria ser entendido como é, um erro. Mas, como disse, a turma anda com pouca paciência buscando motivos para tretar. Já com bebê qualquer um fica mais compreensivo.
O adesivo meio que avisa aos irritados que, “Bicho, calma. Posso ter errado no trânsito, mas estou meio ocupado aqui educando outro ser humano”.

Amaria ter um adesivo desses colado em minha testa permanentemente. Andar com esse álibi anti-intolerância seria realmente fera. Imagina,

Haters de internet:
“K TXT BOSTAAAA!!!! ESPERO Q C MORRA E KEIME NO INFER…. Ah, bebê a bordo!? Desculpa, amigo. Só aprendemos fazendo, não é? Cê tá no caminho, sorte ae.”

No trabalho:
“Cadê a porra da pauta? Você não apurou direito? Aqui não existe folga ou feriado! Eita, foi mal, lindão, não vi o adesivo, tudo bem, vai no teu ritmo, campeão. A pressa é inimiga da perfeição. Descansa.”

Na festinha doidão:
“Vai vomitar na casa do caralh….aí, desculpa, vi o adesivo agora. Divirta-se, você merece. Vomita tudo que quiser, o carpete é velho mesmo”

No banco:
“A multa por atraso é de….ah, tem bebê? Relaxa, vai gastar com fralda e pague quando puder”

Lindo, né?
O adesivo ajudaria também em mal entendidos de compreensão mais complexa,

Voltava pra casa e vi duas minas passeando com o cachorro. Eu vi o bicho e comecei nosso ritual: “Olha o auau! Oi, auau! Tudo bem, auau? Vem cá, auau!!”
Quando notei um misto de horror e deboche (mais horror) nos rostos das moças e seus passos apressados, percebi: eu não estava com você. Era apenas um homem adulto, barbudo, sozinho e sem bebê, abordando duas moças, ou melhor, o cachorro de duas moças, no meio da rua.
O adesivo teria me poupado dessa vergonha.

Infelizmente, esse adesivo pra vida não existe e, mesmo se existisse, sei por experiência que ter filhos não te abona de nada. Pelo contrário. E convenhamos, em pouco tempo ficaria bem chato viver com essa condescendência toda.

Sendo assim, aproveitarei essas migalhas de simpatia e calor humano enquanto você é um bebezinho. Dizem, e é verdade, passa rápido. No caminho, tentarei evitar falar com os animais de estimação dos outros e sempre dar seta.

Amor,
Papai.

05.05.16