ilustra arte desenho cla andré

Arte André Bonani

Você me acorda toda ansiosa e, sorrindo, grita: vem, papai. Vem ver meus desenhos!

Me leva pela mão até a sala onde vejo mais de 20 cartolinas espalhadas pelo chão. Nelas, os mais variados rabiscos. Uma seleta coleção de abstratos loucos e ousados que deixariam Pollock no chinelo.

Trilha sugerida:

Última semana na escolinha e você trouxe pra casa toda a produção acumulada durante o semestre. Um por um, você me explica didaticamente:

mamãe, papai e eu, diz apontando para um provocativo rabisco verde.

Parte para o próximo:

mamãe, papai e eu, diz agora apontando para um igualmente provocativo rabisco amarelo.

Eu consigo ver uma baleia em um deles e você concorda:

mamãe, papai, eu e a baleia.

E assim, seguimos por diversas cores e horas. De fato, tenho a convicção que temos aqui uma Fridinha Kahlo em potencial e te digo que seus quadros/rabiscos são de uma expressividade incrível. Todas as pinturas rupestres até, sei lá, o Romero Brito. Nada supera esse amontoado de cores sem nenhuma forma. Alguns até transcendem e vão além com seus palitinhos de madeira.

Vou passar o café pensando em seus dotes artísticos e quando volto, você parece não concordar com minha avaliação. Você pula com força e raiva em cima de todos os desenhos. Com a mesma dedicação e orgulho com que havia me mostrado minutos antes, agora você tenta destruí-los.

Realmente, van goghuinha, te entendo. Toda empreitada artística na qual já me envolvi me abalou de alguma maneira. Insegurança e insatisfação parecem andar de mãos dadas com o processo criativo (pelo menos no meu caso).

Até essas croniquetas que te escrevo são um bom exemplo. No começo, elas tinham um propósito, depois viraram outra coisa. E enquanto experimento caminhos, elas estão aí, disponíveis para qualquer um, expondo toda minha limitação pra quem quiser ler. Essa ideia de estar me submetendo a possíveis  julgamentos já foi meio paralisante, até concluir que não preciso me levar tão a sério assim e que opiniões são apenas opiniões. Pensar dessa maneira não pretensiosa funcionou até aquele momento em que te vi tão crítica com seu próprio trabalho pulando furiosa sobre as cartolinas.

E se, no futuro, quando quiser e puder ler esses textos, você for tão exigente assim? E se for uma crítica literária feroz? Ou uma escritora absolutamente genial e esnobe? Será que minha mediocridade irá te envergonhar?

Apavorado, espalho meus textos pelo chão e juntos pulamos.

Amor acrítico,

Papai.

15.12.2016