Às vésperas do Dia dos Pais, ‘Papel de Pai’, que estreia hoje no canal GNT, acompanha o dia a dia de homens de diferentes classes sociais, perfis e idades, e sua rotina muito ativa e próxima dos filhos; ao blog, neuropsicóloga fala sobre a presença do pai no crescimento da criança

Muitas vezes, vemos reportagens mostrando homens cumprindo ativamente suas obrigações como pais e, por isso, sendo retratados como ‘heróis’ ou ‘super-pais’. Sabemos que essa valorização não faz sentido, mesmo porque as mulheres que são mães fazem isso no seu dia a dia e nem por isso recebem um troféu. A série documental Papel de Pai, que estreia nesta sexta, 11, às 21h30, no canal GNT – às vésperas do Dia dos Pais, celebrado no domingo, 13 -, acompanha a trajetória de homens que assumiram a tarefa de administrar a vida dos filhos – alguns deles sem a presença da mãe -, sem glamourizar a figura deles.

“O mais importante de tudo para a gente é, em nenhum momento, exaltar esses caras de uma maneira heroica, porque a gente acha que eles simplesmente estão fazendo o papel de pai que eles se disporam a assumir e a viver”, explica o diretor da série, Rodrigo Hinrichsen. “Todo discurso da série, dos personagens vai em oposição ao raciocínio ‘fulano é um grande pai, ele ajuda’. Na verdade, eles não ajudam, eles fazem porque têm a mesma responsabilidade que as mães.”

São 13 episódios no total, cada um deles com dois personagens, de diferentes classes sociais, perfis e idades, todos moradores do Rio. “A gente tem sempre a figura do protagonista, que é aquele personagem que acompanhamos por mais tempo, e dentro disso há vários perfis: pais que foram obrigados por circunstâncias da vida a cuidar dos filhos sozinhos; pais que são casados, a mulher sai para trabalhar e volta à noite e o cara fica em casa administrando as crianças; e a gente tem personagens que são separados e têm a guarda, às vezes, guarda compartilhada, mas que, na prática, acabam sendo cuidadores daquela criança em 90% do tempo”, comenta o diretor.

Série ‘Papel de Pai’. Foto: GNT

“Esses são os três perfis mais fortes das histórias que a gente foi encontrando. Esses caras entram numa aventura que é criar uma criança no dia a dia, leva para o colégio, cozinha, lava a roupa, faz o trabalho doméstico também”, completa Hinrichsen, que é pai de duas filhas.

Além de acompanhar novos entrevistados, ele conta que a série revisita ainda os personagens do programa Boas Vindas, também dirigido por ele no GNT, com foco nas temporadas de Nasce Um Pai. A ideia é ver como, dois anos depois, aqueles pais passaram da expectativa da chegada dos filhos à prática do dia a dia com eles.

“A gente tem o personagem principal, que são os pais cuidadores, que é uma expressão que eles usam – eles dizem que existe o pai de fim de semana e pai cuidador, que está ali no dia a dia – e, na paralela, a gente reencontrou os pais do Boas Vindas, que é outra coisa. É muito na linha do pai se esforçando para fazer o melhor possível, mas que não é o pai que administra a vida do filho sozinho. Esse paralelo é muito importante para a gente.” A série será exibida todas as sextas no canal.

Cena de ‘Papel de Pai’. Foto: GNT

Transformação interna
Mesmo que esse modelo de pai dedicado aos cuidados e à criação do filho esteja aumentando cada vez mais, ele ainda não é uma regra. E a ausência do pai na vida do filho prejudica essa criança. “É uma falta dolorosa quando é uma ausência de quem ainda está vivo, como, por exemplo, pais que abandonam. Já o sofrimento pela ausência do pai já falecido é bem menos ruim para os filhos”, afirma neuropsicóloga Gisele Calia. “A ausência do pai traz a dificuldade de estruturação do ego de uma criança de limite, de regras, de toda educação, valores. A criança não tem referência para construir a parte psíquica.”

Segundo a especialista, a presença do pai no crescimento do filho é importante porque “o pai precisa ser entendido como o outro, ou seja, mostrar para as crianças que, além da mãe, existe outra pessoa tão importante quanto na relação. É como se fosse o terceiro elemento que tem a função paterna”.

Para o homem, essa convivência é fundamental também. Em recente entrevista no programa de Pedro Bial, o ator Cauã Reymond comentou que amadureceu muito após se tornar pai. O que, de fato, acontece. “É uma transformação interna para o homem, que passa a ter um nova identidade e um novo papel: de ser pai. É uma transformação de valores, muito profunda, para que ele se comprometa com a criação daquele ser que ele se responsabilizou de cuidar. Ele deixa de trabalhar e viver apenas para si, passa a ter outras funções”, ressalta a neuropsicóloga, que atua no Grupo de Pesquisa em Hidrodinâmica Cerebral do Instituto de Psiquiatria – HCFMUSP. “Muitas vezes um filho, na narrativa dos pais, é colocado como um divisor de águas da vida deles e assim atribui ainda mais sentido à vida do pai.”

E como essa ‘nova’ visão sobre o papel do pai, daquele que atua ativamente e não apenas ajuda, pode influenciar diretamente na vida dos filhos quando colocada em prática? “O papel ‘novo’ dos pais é de uma grande riqueza. Os filhos seguem o modelo dos pais, se espelham para serem parecidos ou para encontrarem parceiros que se assemelhem aos pais”, diz ela. “Traz ainda mais segurança para que as crianças possam se desenvolver em um ambiente seguro e passarem isso adiante quando forem adultas e se tornarem pais.”

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