Não faz muito tempo que me dei conta de que sou mortal. Ok, sempre soube que nunca viverei para sempre – e quem quer viver eternamente? -, já cantou Freddie Mercury. Mas essa ficha só me caiu há 9 anos, depois que minha filha nasceu. Antes disso, eu nunca tinha parado para pensar nisso de verdade.

Quando a gente é criança, a morte é um completo estranho; na adolescência, temos a sensação de que nada nos afetará – aliás, acho que é a fase da vida em que mais nos sentimos próximos da ideia de imortalidade –; e, quando adultos, entramos numa rotina tão cheia de responsabilidades que só paramos para pensar no assunto depois que um parente querido ou amigo próximo morre.

Há algumas semanas, senti algumas dores estranhas pelo corpo. Um calafrio atravessou a minha espinha. E pensei, petrificada: ‘Meu Deus, não posso morrer’. Sei que foi um pensamento mórbido, precipitado até, mas, naquele momento, me dei conta do quanto sou vulnerável, do quanto sou mortal, do quanto sou humana. E, por alguns instantes, desejei não ser assim. ‘Poxa, tem uma criança que depende de mim e assim continuará até, sei lá, ela se tornar adulta’, foi o que me veio à minha mente para justificar aquela súbita vontade de me tornar indestrutível, tal e qual aos super-heróis das HQs e dos cinemas.

A relação de mãe e filhos. Foto: Pixabay

Pensei nas muitas mães que não puderam ver seus filhos crescerem, seja porque elas partiram deste mundo precocemente, seja porque elas perderam um filho precocemente. Para quem fica na Terra, restam a dor, o luto e o sentimento de que um sonho nunca será realizado. Fica o vazio das conquistas que não poderão ser celebradas juntas; das derrotas que não serão superadas lado a lado; das lágrimas e dos sorrisos que não poderão ser mais compartilhados. Fica a dúvida do que aconteceria se aquela rotina fosse uma soma e não uma subtração.

O que seria de mim? O que seria da minha filha sem me ter para ampará-la, para continuar a ser sua fortaleza, seu porto seguro? E se eu não tivesse a chance de vê-la crescer? Não saber se ela se tornaria realmente chef de cozinha, como ela deseja hoje, ou, quem sabe, algo inesperado, como ir para a Nasa e virar astronauta. ‘Ela ainda precisa de mim, ela ainda precisa de mim’, aquilo martelava na minha cabeça.

Não estou aqui desmerecendo os pais na vida dos filhos, de maneira alguma, mas me dei ao direito de aqui, neste texto, expor o pensamento e as angústias de uma mãe.

Bom, tomei coragem, fiz alguns exames e constatei que está tudo certo com minha saúde. Veio, então, a sensação de alívio, mas também da vigília.

E me dei conta que, mais do que o tal ‘padecer no paraíso’, ser mãe é querer ser imortal.

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