A todo momento, um relato de assédio é compartilhado por uma mulher. São casos de assédio físico, sexual, moral… E lendo tantas histórias em que as vítimas escancaram sua dor, com a coragem de dar os mais nauseantes detalhes, minha ficha, de repente, caiu. ‘Peraí, aquelas situações pelas quais passei, e que me faziam acreditar que não passavam de cantada barata, eram, na verdade, assédio!’. Porque uma coisa é você ser cortejada e outra bem diferente é você ser constrangida.

Homem usando a força para ter sua atenção não é cantada: é assédio. Homem em cargo de chefia te convidando para fazer uma viagem com ele ou te mandando mensagens ‘elogiosas’ não é cantada: é assédio. Foi graças a esses relatos que pude compreender pelo que passei durante anos – e que muitos tentavam minimizar com a desculpa de serem só ‘gracejos’ e que fariam bem para a auto-estima.

Crédito: Pixabay

Crédito: Pixabay

Então, sobre esses relatos, tiro duas conclusões. A primeira: como eles são importantes até pelo serviço que prestam às outras mulheres também, para que elas abram os olhos e percebam que passam ou já passaram por situações do gênero. A segunda: os casos de assédio se repetem de geração para geração – com a diferença que agora as mulheres estão mais informadas, alertas e unidas.

Mas o que será das nossas meninas de hoje, que serão as mulheres de amanhã, nesse mundo em que há quem ainda ache que elas possam ser tratadas como inferiores (até quando isso?!), com escárnio ou mesmo com dedo em riste em direção ao rosto delas, numa tentativa de subjulgá-las ou oprimir?

Minha filha, que ainda é criança, já levou tapa no rosto de menino e, vez por outra, tem de aguentar algum amigo do colégio falando com ela num tom mais alto do que o normal. Fica difícil o alerta vermelho do machismo não apitar nessas horas. E se ela não fosse uma menina e, sim, um menino, será mesmo que o colega teria a mesma desenvoltura para levantar a mão ou a voz? ‘Ah que exagero. Lá vem ela com esse papo feminista’, muitos podem pensar. Será mesmo? Pense bem.

Nesse mundo ideal de igualdade, meninas e meninos devem aprender dentro de casa e em sociedade que têm os mesmos direitos, deveres e valores. Não adianta só elas se apropriarem desse pensamento enquanto eles crescem ouvindo discursos ou vendo atos que desqualificam ou menosprezam a figura feminina. Assim, essa conta nunca vai fechar.

Enquanto minha filha estiver embaixo das minhas asas, ela será protegida. Mas e quando ela seguir seu caminho por conta própria, o que ela encontrará? Um futuro em que mulheres ainda precisam provar que são competentes e que merecem ser respeitadas – e que têm ainda de se defender de assédios.

Minha filha crescerá, claro, sabendo da importância dela no mundo. Mas será que o mundo finalmente saberá a importância que ela e outras mulheres têm?

Mande sua história ou sugestões de matéria para os e-mails familiaplural@estadao.com e familiaplural@gmail.com

Acompanhe a gente também no Facebook: @familiaplural