Família Plural

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Polêmica do MAM: Criança deve ter acesso a todo tipo de arte?

Por Adriana Del Re

   

O blog convidou psicólogos e educadores para falar sobre o tema, com objetivo levar o debate para pais e responsáveis

Nos últimos dias, a polêmica envolvendo a menina que presenciou a performance de um artista nu na abertura do 35.º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), dominou as redes sociais e muniu acaloradas discussões. O foco deste texto do blog Família Plural, no entanto, não é o MAM, que já se pronunciou repetidas vezes afirmando que a sala do museu onde ocorreu a performance estava sinalizada sobre o conteúdo da exposição. Outros museus pelo mundo fazem a mesma coisa: alertam os adultos e cabem a eles decidir se devem adentrar ou não no recinto com uma criança.

Assim, esta matéria é endereçada aos pais (e responsáveis). Afinal, a polêmica foi detonada por causa da presença de uma criança naquela sala. E foi o que me fez pensar: criança deve ter acesso a todo tipo de arte? Isso ficou martelando na minha cabeça, sobretudo porque sou mãe de uma criança e gosto muito de ter a companhia dela em minhas idas a exposições, museus, galerias.

Não estamos aqui para julgar ninguém. Nossa proposta é fomentar o debate com ajuda de profissionais.

Criança na exposição ‘A Dream I Dreamed’, da artista japonesa Yayoi Kusama, no Museu de Arte Contemporânea de Shanghai. Foto: Carlos Barria/Reuters

Começamos esse debate falando sobre a importância da arte na formação das crianças (calma, estamos falando de arte em geral, não do nu artístico). “É através da arte que a criança descobre seu entorno, o ambiente em que vive e no qual está se adaptando, até se tornar um adulto com senso crítico e preparado para fazer escolhas, tanto individuais, como coletivas (sociedade)”, descreve Lara Orlow, que tem licenciatura em Artes Visuais e especialização em Atendimento Educacional Especializado, Educação Inclusiva e Deficiência Intelectual.

Para a psicopedagoga Luciana Brites, a arte estimula a criatividade, as questões do desenvolvimento das percepções auditivas e visuais. “É importante a criança ser exposta, dentro de seu desenvolvimento, a produções artísticas, sejam elas musicais, pinturas, esculturas. E elas mesmas podem fazer essa arte quando desenham, brincam de massinha”, afirma Luciana, uma das fundadoras do Instituto NeuroSaber. “Os benefícios são muitos, passam pelo campo da criatividade, consciência corporal, aquisição de conhecimento a respeito de uma cultura”, reforça a psicóloga Carol Marques, especialista em Neuropsicologia e Desenvolvimento Infantil.

Isso posto, vem a grande questão: existe um limite para essa relação entre criança e arte? Na opinião de Luciana Brites, depende muito do sistema de valores e crenças da própria família, ou da cultura em que essa criança está inserida e do nível de maturidade. “Você pode apresentar uma obra de arte e ser o mediador daquilo, para aquela criança, porque, muitas vezes, a criança não vai entender – assim como tudo na vida, não é só a arte. Nós, enquanto adultos, somos corresponsáveis, e é muito importante o nosso papel de mediação com tudo o que a criança vai ver e ser exposta”, completa a psicopedagoga.

Lara Orlow prefere não usar a expressão “limite”, mas “adequação à fase de desenvolvimento da criança”. “A arte, enquanto expressão da sociedade em que vivemos, e servindo como ferramenta de contextualização ao mundo que cerca a criança, deve, sim, servir também como ferramente para levar a criança à reflexão. Mas essa reflexão será absolutamente inútil se não estiver adequada ao universo da criança, ou seja, respeitando as etapas de desenvolvimento”, completa ela.

Criança e arte. Foto: Pixabay

A psicopedagoga Silvana Capanema, especialista em Psicologia do Desenvolvimento Infantil, fala também da importância de se “respeitar as singularidades de cada faixa etária e o nível de maturidade”. “A aprendizagem ocorre somente quando o contexto apresenta significado para a criança”, diz a profissional, do Instituto de Psicologia Espaço Vida.

De acordo com a psicóloga Marilene Kehdi, toda arte tem a sua história e a sua interpretação, e cada pessoa adulta percebe a arte e o seu contexto à sua maneira e de forma distinta. E, referindo-se ao nu artístico, ela afirma que uma criança nunca deve ser exposta a esse tipo de arte. “Além de vários outros fatores prejudiciais, ela não compreende que foi autorizada a tocar no corpo de um homem nu em um determinado contexto como neste caso da exposição de arte e que não poderá fazê-lo em outra situação. Isso causa muita confusão no entendimento dela. Crianças precisam brincar, passear e precisam de orientação e limites. E, acima de tudo, serem preservadas e protegidas daquilo que não faz parte do seu mundo de criança e ponto”, diz Marilene, que também é escritora e fundadora do portal Psicodicas.

E o que as outras especialistas acham sobre isso? É necessário que a criança tenha contato com esse tipo de experiência artística como a vista na performance? “De forma generalizada, sem análise sobre como essa criança lida com esse assunto, toda criança tem direito ao conhecimento a partir do momento em que se estabelece a dúvida. Induzir a algo antes do tempo é um grande equívoco que pode ativar uma precocidade no seu estilo de vida. Por outro lado, cabe ainda ressaltar que os pais são os responsáveis pela educação dos seus filhos em todos os aspectos, inclusive o sexual. Manter a criança alheia às diversas informações induz o menor à permissividade por ignorância”, responde a psicopedagoga Silvana Capanema.

“Isso vai depender do contexto cultural em que essa criança vive, de sua etapa de desenvolvimento e das ferramentas que ela terá para absorver e entender a experiência artística”, opina a psicóloga Carol Marques.

Criança no American Indian Museum, em Washington. Foto: Kevin Lamarque/Reuters

“Vai depender muito de como a mãe trabalhou aquele tipo de conceito dentro daquela situação, mas acho que sempre que você vai expor uma criança a qualquer tipo de obra artística ou a algum tipo de aprendizagem, primeiro a gente tem de pensar se ela tem maturidade para aquilo, e segundo: o que aquilo vai agregar para ela? Será que, de repente, ela brincar de alguma outra coisa ou trabalhar as partes do corpo de uma forma diferente não agregaria mais conhecimento e não seria mais adequado no sentido de que ela iria aprender mais do que exposta a um tipo de arte dessa forma? A gente tem sempre que ponderar muito e tomar muito cuidado em relação a isso”, afirma a psicopedagoga Luciana Brites.

Responsabilidade dos pais. Nas discussões em redes sociais, houve quem comentasse que crianças podem, de repente, se deparar com pinturas e esculturas representando nus em museus, e que isso não é motivo de reclamação. “Existe uma diferença latente e importante. O nu humano em questão se refere a um ser vivo. As estátuas se referem a uma reprodução inanimada. Além disso, é absolutamente proibido tocar obras de arte, seja por crianças ou adultos, a não ser aquelas que são interativas, o que não é o caso das estátuas de mármore ou bronze que reproduzem o nu”, diz Lara Orlow.

“Aquilo é uma representação de um nu, e não especificamente um nu, aquilo é como se fosse um signo, que dá um significado, e tem um por que ali por trás, uma questão de uso de material, você tem um sentido em cima daquilo, e não uma nudez simplesmente exposta”, compara Luciana Brites.

A mãe da menina foi atacada nas redes e querem que ela seja responsabilizada. Qual o papel dos pais ou responsáveis nessas horas? Para Carol Marques, é saber junto dos seus filhos o que eles podem ou não ver ou acessar. “Entretanto, quando a sociedade julga que a escolha da família coloca a criança em situação de risco, eles são responsabilizados”, diz. “A meu ver não tem como afirmar que a exposição dessa criança a essa performance tenha algum impacto negativo no seu desenvolvimento.”

Segundo Silvana Capanema, “não existem parâmetros para tal julgamento”. “Não fazemos parte do núcleo familiar para sabermos sobre a educação dada a essa criança. Percebe-se no vídeo uma sugestão de aproximação através do toque, mas não podemos afirmar a intenção”, afirma. “Enfim, são muitas polêmicas causadas sobre suposições. O que realmente sabemos é que a mãe estava ciente do que encontraria na exposição. Quando tivermos a consciência cultural que as mostras artísticas não trazem consigo o intento de erotização, com certeza dosaremos melhor o grau do nosso moralismo.”

 

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