História divulgada em fevereiro causou comoção, mas possíveis adotantes consultados se mostraram receosos em adotar o trio ao mesmo tempo; segundo psicóloga, a escolha pela adoção deve surgir a partir de um processo de planejamento familiar

 

Em fevereiro, o blog Família Plural foi atrás da história que repercutia nas redes sociais sobre os três irmãos em busca de uma família que quisesse adotá-los juntos. À época, conversamos com Fernanda Bussinger, Defensora Pública do Estado de São Paulo, que havia postado em seu Facebook um texto que comoveu seus seguidores e extrapolou sua rede de amigos. “Hoje participei de uma audiência que destruiu meu coração: três irmãos lindos querendo muito ter uma família. Uma menina de 14 anos, um menino de 10 e uma menina de 4. Há possivelmente viabilidade de adoção para os dois menores (pois a mais velha ‘passou da idade’). Ela é louca pelos irmãos e está tendo que decidir se ‘desapega’ emocionalmente deles para deixá-los serem adotados (o que significa talvez nunca mais vê-los)”, escreveu ela.

Motivadas pela série de matérias sobre adoção que estávamos produzindo, iniciada no dia 22 de maio (dia 25 foi o Dia Nacional da Adoção) e que se encerra nesta terça, 6, nós, do blog, queríamos saber se essa história havia tido um desfecho – e, do fundo do nosso coração, torcíamos para receber uma boa notícia. No entanto, apesar de tanta mobilização e comoção – e tantas pessoas em listas de espera para adotar e realizar o sonho de se tornar pais -, os três irmãos ainda aguardam para ser adotados.

Segundo informações obtidas pelo blog, o casal que demonstrou interesse nos três, e que estava prestes a começar a se aproximar deles, descobriu que está ‘grávido’ – com um agravante: a gravidez é de risco. Assim, eles avaliaram que não teriam condições de acolher o trio nesse momento delicado. Outros casais que constavam numa lista foram contatados, mas estavam receosos em receber os três de uma vez.

Três irmãos que buscam ser adotados juntos ainda estão à espera da adoção. Foto: Pixabay

Acreditamos que esse não seja um momento de julgamentos, mas, sim, para que o caso desses três irmãos continue circulando e chegue a pais que realmente tenham estrutura financeira e muito amor para poder acolher o trio e assumi-lo como sua prole.

O blog entrevistou a psicóloga Adriana Meneghetti Gouvea, da plataforma Doctoralia, sobre questões importantes que envolvem a adoção. Perguntamos sobre o caso do casal que descobriu a gravidez e, assim, não se sentiu apto a adotar três crianças nesse momento. “Se pensarmos que tanto a gravidez quanto o processo de adoção envolvem planejamento e transformações na rotina, cujo objetivo é proporcionar o desenvolvimento integral e a proteção do novo membro da família, fica evidente que tais processos abarcam sentimentos de medo, dúvidas, expectativas e outras inquietações com as quais a família precisa lidar”, analisa a psicóloga.

“Entendo que estes dois processos acontecendo paralelamente (especialmente quando envolve grupos de irmãos) poderia trazer prejuízos para todos os envolvidos no que tange a qualidade da convivência familiar, adaptação e formação dos vínculos familiares, além de possivelmente comprometer a atenção dos pais em relação às demandas de seus filhos (adotivos ou naturais).”

No entanto, ela afirma que “todos os casos devem ser avaliados cuidadosamente e isentos de julgamento, visando, acima de tudo, o maior interesse da criança e do adolescente para que possam se desenvolver bem e ter seus direitos garantidos, lembrando que cada indivíduo é diferente e carrega em si crenças e valores pessoais que os levará a encarar os processos de forma muito particular”.

“Trago aqui o exemplo de uma família atendida em psicoterapia cujo processo de adoção estava em andamento quando o casal soube da gravidez, ambos os processos seguiram paralelamente de forma tranquila, pois todas as intervenções em psicoterapia estavam em consonância com tudo aquilo que favorecia o desenvolvimento saudável de ambos os filhos”, diz ela.

Lar amoroso
Atualmente, 46 mil crianças e adolescentes moram em abrigos, sendo que apenas 16,3% desse total estão no Cadastro Nacional de Adoção. Ao mesmo tempo, muitos casais e pessoas solteiras que estão em listas para adotar lamentam que processos lentos e burocráticos os impeçam de se tornar pais mais rapidamente. E sofrem ambas as partes.

São 46 mil crianças e adolescentes que moram em abrigos, sendo que apenas 16,3% desse total estão no Cadastro Nacional de Adoção. Foto: Pixabay

Assim sendo, como essas pessoas que estão à espera para adotar devem se preparar em relação às expectativas da chegada dessa criança, levando em consideração que, muitas vezes, o processo de adoção pode ser longo e/ou frustrante? A psicóloga afirma que, inicialmente, é importante dizer que a escolha pela adoção deve surgir a partir de um processo de planejamento familiar, que auxilia na preparação de um ambiente acolhedor, composto por pessoas que estejam dispostas a exercer seus papéis parentais de forma plena e consciente.

“Entendemos, após a escuta de inúmeros relatos de experiências compartilhadas, que os processos de adoção muitas vezes são demorados e frustrantes, mas, se a questão do longo tempo de espera for ressignificada, isso pode ser algo positivo”, avalia. “Se tivermos o tempo como aliado neste planejamento e na construção de redes de apoio ao redor dos pretendentes à adoção, suas famílias e amigos, todos poderão se preparar da melhor forma para que o filho a ser adotado sinta com menor impacto as consequências do processo de adoção.”

E no caso das crianças e adolescentes, submetidos a longos períodos de espera para serem adotados? “Se pensarmos nos prejuízos causados pela espera por uma família e potencializarmos esses prejuízos a partir de uma espera mais longa, sem que a criança ou o adolescente tenha a certeza de que a inserção em família substituta aconteça, é possível pensar em danos ainda maiores que serão refletidos no futuro, não só emocionais, mas físicos e sociais também”, observa ela.

“Por isso, sugiro que toda criança seja inserida em programas de acompanhamento psicossocial desde o momento de seu acolhimento para que seja trabalhada a redução dos danos causados pelo abandono e pela longa espera, além de fornecer ferramentas psicológicas para que a criança e o adolescente se mantenham positivos durante esse processo, desenvolvendo pensamentos resilientes frente a situações diversas”, complementa a psicóloga.

Desejamos que essa espera não se prolongue ainda mais para os três irmãos, assim como para tantas outras crianças e adolescentes que esperam finalmente encontrar um lar feliz e amoroso.

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