Pamela compõe canções que falam sobre alimentação, higiene bucal, questão de gênero, igualdade racial, respeito à diversidade, entre outros temas; blog também ouviu especialista sobre a importância de elementos lúdicos no aprendizado infantil.

Vinda de Belo Horizonte (MG), Pamela Rodrigues, 27 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro há pouco mais de dois anos. Disse que deixou sua cidade natal por acreditar que encontraria em terras cariocas as oportunidades que nunca havia tido até então. Na mala, R$ 100,00, os materiais que usa para criar peças de artesanato e alguns objetos pessoais. Como companhia, o filho Matheus, que hoje tem 6 anos.

Apaixonada por música, mais especificamente pelo hip hop, encontrou no filho a inspiração para voltar a compor. “Sempre tive um bloqueio grande por conta de coisas que ouvi na minha infância. Saí de casa aos 15 anos, por desentendimentos com meus pais, e o Matheus me inspirou a voltar a escrever e a cantar”.

Ela conta que começou a compor suas músicas quando o filho começou a falar. “Ele ia comigo no duelo de MCs, que rola debaixo do viaduto Santa Tereza, quando ainda morávamos em BH”.

Mãe solo, Pamela auxilia o filho Matheus por meio de músicas e brincadeiras Foto/Divulgação

Mãe solo, Pamela auxilia o filho Matheus por meio de músicas e brincadeiras Foto/Divulgação

Pamela, cujo nome artístico é MC Magrela, diz que percebeu que cantar para o filho o ajudava nas atividades escolares. “O Matheus é muito esperto, espontâneo, mas tem um déficit de atenção grande. Estou tentando fazer ele se interessar mais pelas atividades escolares por meio da música. Pego as letras das canções que ele gosta, coloco os fones de ouvido nele e dou a letra para ele acompanhar o que está escrito”.

Mas desde pequenininho ele já ouvia as músicas da mãe para aprender importantes lições. As primeiras composições de Pamela para o filho falavam sobre alimentação e higiene bucal. Com o passar do tempo, ela foi inserindo novos elementos, temas e questões que considera essenciais para seu desenvolvimento como a questão de gênero, a igualdade social e racial, o respeito à diversidade sexual, empoderamento feminino, sobre conquistas, alcançar os objetivos, todo e qualquer tipo de preconceito etc.

Ela reforça a todo momento com Matheus que para cantar ele precisa aprender a ler e a escrever. “Falo que ele vai cantar primeiro as minhas músicas, até aprender a ler e a escrever e poder fazer as dele. Então, sinto que ele se esforça mais na escola para alcançar o que ele quer, que é cantar”. E completa, “geralmente, quando faço uma coisa que ele não entende, rimo com a situação e ele compreende mais facilmente”.

Primeiras composições de Pamela para o filho falavam de alimentação e higiene bucal Foto/Divulgação

Primeiras composições de Pamela para o filho falavam de alimentação e higiene bucal Foto/Divulgação

Mas nem tudo é música nesta pequena família de mãe e filho. Quando o pequeno faz algo errado, Pamela diz que o castigo é não poder cantar com ela. “Porque se ele vacila tem de ser punido com uma coisa que goste”.

A jovem mãe diz que a vida tem mostrado ao filho que a música é um caminho, que abre portas para o mundo. “E, com todo amor, ensino a ele que ser MC não é ser vagabundo”.

Atualmente, Pamela é modelo, mas cria roupas e peças de artesanato para complementar a renda familiar. O blog conheceu sua história por meio do programa Manos e Minas, transmitido pela TV Cultura.

Educação pela vivência

De acordo com Giovana Nicoleti, pedagoga e psicopedagoga com especialização em educação infantil e coordenação pedagógica, e atual coordenadora pedagógica do Colégio Conte, localizado no bairro da Saúde, em São Paulo, a fase de 0 a 6 anos é a mais importante para o desenvolvimento da criança. “Tudo o que você insere nesta fase é o que ela vai levar para o resto da vida”, diz a profissional.

Ela explica que qualquer atividade lúdica que gera prazer faz com que a criança se dedique mais sem perceber, promovendo maior desenvolvimento físico, motor, cognitivo e social. Giovana explica ainda que isso impacta positivamente na vida futura dessas crianças, proporcionando socialização e respeito ao próximo. “O ensinamento lúdico indica a elas o que é certo e errado, aprimora algumas habilidades e, por meio do faz de conta, as ajuda a se colocarem no lugar do outro – do pai, da mãe, do tio. Além disso, auxilia na criatividade”.

A psicopedagoga destaca ainda que o método lúdico de ensino gera segurança emocional para a criança. Principalmente quando tem a participação de adultos. E ressalta que qualquer lugar serve de cenário para estas atividades. “Qualquer lugar é lugar de aprender e a família pode ser participativa. Muitas vezes, os pais descobrem habilidades adultas por meio de brincadeiras com os filhos. Por sua vez, a criança fica orgulhosa da família por proporcionar isso a ela”.

Giovana Nicoleti, pedagoga e psicopedagoga

Giovana Nicoleti, pedagoga e psicopedagoga Foto/Divulgação

No caso da música, Giovana diz que questões importantes são trabalhadas por meio desta atividade como matemática, raciocínio lógico, concentração, além de auxiliar na memória, no aprendizado de idiomas etc.

Engana-se quem pensa que são necessários materiais caros e específicos para promover experiências lúdicas às crianças. A coordenadora pedagógica diz que elementos como fantoches desenhados nos dedos e materiais do dia a dia, como caixas de leite, podem se transformar em carrinhos, foguetes e instrumentos musicais. “Até mesmo a natureza pode favorecer a atividade: vento, folhas. Podemos ter uma família brincando com pedras, sendo os personagens representados por cada pedrinha. Além disso, existem passeios gratuitos como visitar o Jardim Botânico, um museu. Isso amplia o repertório infantil. A criança pode brincar com os pais até na hora de colocar os pratos à mesa, estimulando o aprendizado dos números, contando os talheres, os pratos”.

Giovana cita o caso de uma criança que é aluna da escola onde trabalha, que aos 9 anos não conseguia ler ou escrever e que, por meio de atividades lúdicas, conseguiu fazer a leitura de 19 livros em 2016. “O estudar pode ser ligado ao brincar e a criança nem perceber o quanto está aprendendo”, finaliza.