Mãe de menina de 1 ano, Jamille contou, em sua rede social, que sofreu racismo e quase teve a filha sequestrada; a polícia diz que as imagens das câmeras não correspondem ao que ela relatou; Jamille diz que está recebendo ameaças

Atualização às 14h50 de 1/7. O blog Família Plural contou a história de Jamille, depois que assistimos ao relato dela no programa Encontro com Fátima Bernardes. A polícia, no entanto, diz encontrar contradições no caso. Segundo ainda a polícia e também um jornalista que teve acesso às imagens das câmeras internas do local onde Jamille afirma ter sofrido racismo, não há indícios que ela tenha entrado no banheiro. Foi lá, no banheiro, que Jamille diz ter acontecido a tentativa de sequestro da filha.

O blog conseguiu entrar em contato com Jamille via Facebook neste sábado, 1, e, em conversa pelo messenger da rede social, ela disse que está sofrendo ameaças, mas não contou de quem. Ela disse que só vai se pronunciar quando for prestar depoimento oficial, na próxima quarta, 5. “Eu sei bem o que eu passei e estou passando. E na quarta feira vou relatar tudo isso”, escreveu ela.

Saíram notícias de que ela própria afirmou que o perfil no FB em que relata a suposta tentativa de sequestro é fake. Sobre isso, Jamille afirma que está sendo praticamente obrigada a dizer que esse perfil é falso.

O caso ainda está muito confuso e o blog Família Plural vai continuar acompanhando.

 

No último dia 26, Jamille Edaes, de 22 anos, compartilhou em seu Facebook uma situação aterrorizante pela qual passou. Ela estava viajando de ônibus com a filha pequena, de 1 ano, de São Paulo a Belo Horizonte. Jamille mora em Betim, Minas Gerais, e o marido Roberto, em São Paulo, onde procura por emprego.

Numa das paradas, em Perdões, Sul de Minas, as duas foram ao banheiro e, segundo Jamille conta, uma mulher desconhecida deu a mão para a criança. Ela achou que era brincadeira, até que a mulher começou a gritar ‘Solta a minha filha!’. Assustada, pegou a filha e a mulher foi atrás. Um parênteses aqui: Jamille é negra, seu marido é branco e os dois tiveram uma filha branca, Manuela; e a mulher desconhecida é branca.

De acordo ainda com Jamille, um funcionário, então, apareceu e perguntou o que estava acontecendo. A mulher desconhecida respondeu: “Essa preta roubou a minha filha”. Jamille esbravejou dizendo que a criança era sua filha. O funcionário quis saber se ela tinha como provar. A mulher desconhecida sacou uma certidão falsa.

Manuela foi tirada dos braços de Jamille e entregue à outra mulher. Jamille ficou desesperada vendo sua filha sendo sequestrada. Ouviu coisas como: “Ela não é sua filha, ela é branca, ela não se parece com você”.

Foto: Pixabay

Só depois de comprovar a maternidade não só por documentos, mas também com fotos em sua rede social, que Manuela foi devolvida para ela.

Preconceito dia a dia

Eu conheci a história de Jamille só ontem, 29, enquanto assistia ao programa Encontro com Fátima Bernardes – mas a jovem já tinha feito esse relato na sua rede social no próprio dia 26. Jamille e o marido estavam lá no palco, conversando com Fátima, e peguei a entrevista já começada. Parei diante na TV e fiquei estarrecida, sem conseguir acreditar que tamanha crueldade tinha acontecido.

No programa, o marido estava visivelmente triste, e Jamille visivelmente indignada. E ela falava a todo momento no absurdo que é provar a toda hora que é mãe de Manuela. Existia dor em sua fala, e parecia que aquele filme de terror passava repetidas vezes diante de seus olhos.

Uma mulher na plateia, também negra, contou que, certa vez, o ônibus em que ela e seu filho, negro, estavam foi parado pela polícia, e só o filho dela foi revistado. Mas esse fato, ela ressaltou, não foi isolado.

Me lembrei de outro vídeo doloroso sobre racismo que vi outro dia no Facebook, com depoimentos de famílias negras norte-americanas que vivem sob a mão pesada do preconceito dia a dia. Mães e pais ensinando como seus filhos pequenos e adolescentes devem se comportar e falar diante de abordagens policiais. O objetivo? Saírem vivos. Foi desolador ver aquela menina, ao lado do pai, com as mãozinhas para o alto, como se estivesse se rendendo, reproduzindo o que ela pratica em casa: “Tenho 8 anos, estou desarmada e eu não tenho nada que vai machucar você”.

Por que, em pleno século 21, os negros ainda têm de sair de casa preparados para enfrentar uma verdadeira guerrilha na rua, com documentos sempre a postos e frases bem ensaiadas para provar que são cidadãos de bem?

Jamille com sua filha Manu. Foto: Facebook/Jamille Edaes

Conversando com minha parceira de blog, Claudia Pereira, sobre o caso de Jamille, ela contou algo tristemente revelador. Ela é branca e o pai dos filhos dela, negro – o oposto de Jamille e Roberto. Pedi para ela compartilhar sua experiência aqui: “Embora meus filhos sejam gêmeos, eles não são idênticos. Estão bem longe disso. Um tem a pele mais clara e o outro é negro. Quando eram pequeninos, muitas vezes as pessoas que nos paravam na rua perguntavam se o pai deles era negro, por conta dessa diferença. Como sou mãe solo, o pai nunca estava com a gente para comprovar, mas minha palavra bastava”, conta Claudia.

E ela continua: “Em momento algum tive minha maternidade questionada. E, olhando o caso da Jamille, que quase teve sua filha roubada, fiquei pensando nas razões de ela ter o seu papel de mãe colocado em xeque. Primeiro ponto que pensei, e todo mundo, acredito: uma mulher negra com uma criança branca? Hummm, estranho. Sim, as pessoas pensam isso. E até comentam “deve ser a babá, a empregada”. Mas dessa vez extrapolaram, e decidiram que era uma sequestradora. Uma mãe clara com um filho negro pode ser inúmeras coisas: “o pai é negro”, “olha como ela é generosa, adotou uma criança ‘de cor'”, “olha que pessoa boa, levando o filho da empregada para passear”. Hoje, com meus filhos na adolescência, vez ou outra ainda escuto: “o pai dos seus filhos é negro”? Será que se fosse um homem negro seria assim? Não diriam que, talvez, ele fosse casado com uma branca? Por que com a Jamille? Por que foi tão fácil para as pessoas acusarem a mãe verdadeira e tomarem o partido da branca? No fundo, acho que todos nós sabemos, não é mesmo?”.

A síndrome da ‘Casa Grande e Senzala’ ainda está nitidamente (e nada velada) arraigada no nosso cotidiano, em gestos, olhares, pensamentos e, como visto, atitudes. Jamille só poderia ser a sequestradora, a babá ou a mulher que aceitou cuidar da filha da ex-mulher do marido? Por que as muitas Jamilles, mães negras de filhas brancas, são reduzidas a isso?

Segundo ela disse a Fátima, o caso está com o advogado. Agora, as perguntas que não querem calar: o que aconteceu com a mulher que andava propositalmente com um documento falso à espreita de uma boa oportunidade?; como essa história impactará Manu daqui a alguns anos?; e, mais do que isso, até quando Manu terá de ver o mundo sendo hostil com sua mãe negra?

O caso está sendo investigado pela polícia.

Leia o relato na íntegra que Jamille fez no Facebook:

Hoje dia 26/06/2017 sai dá cidade de São Paulo no ônibus de 09:00hrs com destino a Belo Horizonte. A viagem ocorrendo bem, até fazermos a segunda parada em um estabelecimento.

Entrei no banheiro com minha filha que tem apenas 1 ano e 5 meses, e na saída uma moça bonita com aparentemente uns 30 anos deu a mão a ela. Eu achei que ela estava brincando então não me importei muito, quando do nada essa moça começou a gritar : SOLTA A MINHA FILHA. Eu fiquei meio que sem reação, meu primeiro impulso foi pegar a #Manuela no colo e tentar sair de perto. Ela veio atrás gritando e tentando puxar a minha filha do meu colo. Ninguém fazia absolutamente nada!!!!

Quando um rapaz (funcionário) chegou perto e perguntou o que estava acontecendo e ela respondeu: Essa preta roubou a minha filha. Ele me olhou de cima a baixo e perguntou o que eu estava fazendo com aquela “criança” no colo. Respondi: Essa “criança” é a minha filha!! Quando ele me perguntou: Tem como provar? Ãh?? Como assim eu ter que provar que minha filha é minha filha? Fiquei desesperada sem saber o que fazer. Quando aquela desgraçada daquela mulher puxou uma CERTIDÃO FALSA, alegando que ela tinha como provar. Vi meu mundo cair, pegaram a minha filha do meu colo e entregaram a ela. Vi ela andando em direção ao carro com a minha filha no colo. Corri, chorei, pedi a ajuda e todos falando: ela não é sua filha, ela é branca, ela não se parece com você. Pelo amor de Deus, como assim?? Minha filha não é minha filha porque eu sou negra????? O pai dela é branco e ela realmente se parece mais com ele que comigo. Me seguraram, quiseram me bater, falaram que eu estava sequestrando uma criança :'(

Inicialmente os passageiros ficaram do meu lado e quando ela mostrou a certidão TODOS me olharam torto.
Eu ando com a IDENTIDADE e CPF dela na bolsa , foi quando eu peguei, expliquei, falei para perguntarem a minha filha cadê a mamãe. Chamei a polícia.

O motorista do ônibus falou que não iria me esperar pois tinha “horário”. Ou eu ficava e fazia b.o e ficava presa em uma cidade a Quilômetros de distância da minha casa ou ia embora com eles… Precisei entrar no face, mostrar fotos grávida, mostrar fotos do hospital, do nascimento dela. Para assim acreditarem que a menina branca, era filha da mulher negra!!!! ABSURDO, PRECONCEITO, DESCASO!!!!! Estou sem acreditar até agora que isso tenha acontecido comigo. Por fim, depois de mostrar nossos documentos e fotos me ajudaram a pegar a MINHA filha… E aquela mulher ficou lá, se esguelando, gritando e as pessoas que a conteram ficaram aguardando a chegada da polícia. Eu vim embora com uma sensação horrível, de que isso ainda vai acontecer muitas e muitas vezes e por causa do racismo e preconceito quase eu perco a minha filha.
#IssoéBrasil #ElaAindaVaiSairImpune

 

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