O Família Plural foi atrás de especialistas que pudessem explicar o que está por trás das mortes que, supostamente, foram causadas em razão do desafio, e também comentar sobre o assunto que virou top trend nas redes sociais, na mídia, em grupos de pais e no ambiente escolar.

 

Impossível para o Família Plural ficar indiferente ao tal “Jogo da Baleia Azul”. O assunto foi trazido a mim por um dos meus filhos, que tem 15 anos. Ele me questionou: “mãe, você viu esse lance do jogo da Baleia Azul?”. Pedi a ele que me explicasse e fiquei chocada. Na mesma hora, perguntei a ele e ao irmão gêmeo: “vocês não entraram nisso ou têm interesse em entrar, né?”. Eles caçoaram de mim. Pela primeira vez fiquei feliz com a “tiração de sarro” filial (quem tem filhos gêmeos sabe do que estou falando).

Depois da descoberta, do susto e do alívio em saber que eles não possuíam nenhum interesse naquilo e que, assim como eu, achavam maluquice um “jogo” que estimula o suicídio, fiquei pensando nos meus tempos de adolescente sem tecnologia, sem TV a cabo (o que dirá canais on demand), esperando quase um mês por uma revista internacional que trazia as notícias gringas sobre música, ouvindo Love Songs para saber as traduções das canções que eu curtia. Tecnologia, para mim, vinha na forma de filmes como “De Volta Para o Futuro”, principalmente o 2 (aquele do skate flutuante), “2001: Uma Odisséia no Espaço”, “Blade Runner: O Caçador de Andróides” e, claro, do desenho “Os Jetsons”. E não entendam, com este comentário, que sou contra a tecnologia, muito pelo contrário.

Amigos, só os de carne e osso. Para alguns, talvez, os imaginários, mas nada de virtual. Quando minha mãe não gostava de algum amigo ou amiga, era literal: “não quero mais ver você com tal pessoa”. E ai de mim se fosse vista pelo bairro circulando com o tal ser humano. Até porque, o meu universo na juventude se limitava muito ao bairro em que eu vivia. Não havia celulares, nem nada que ajudasse os pais no “controle dos filhos”. O gerenciamento era mais no boca a boca mesmo.

Jogo da Baleia Azul tem mobilizado redes sociais, mídia, pais e escolas

Jogo da Baleia Azul tem mobilizado redes sociais, mídia, pais e escolas

Hoje, controlar por onde seu filho “viaja” na internet ou quem são os amigos virtuais é uma missão hercúlea. Alguns pais até tentam, mas lá no fundo sabem que é impossível.

Para o professor Pedro de Santi, que é psicanalista e Líder da Área de Humanidades da graduação da ESPM-SP, diferentemente do que muitos pensam, o problema não é a tecnologia e o que ela proporciona, mas sim a tendência de os pais sempre estarem mais predispostos a controlar os filhos do que realmente ouvi-los. “A internet, em geral, não é boa nem má, mas entre o adolescente e a tecnologia tem de haver o gerenciamento dos pais. Deixar o filho solto não dá”. Mas, segundo ele, também não é algo que possa ser feito de forma invasiva.

Santi, que tem duas filhas, uma delas com 13 anos, relata que pratica isso em sua casa, e quando as meninas querem assistir a um conteúdo com senha precisam pedir a ele. “Nesses casos, assisto o conteúdo com elas. É preciso mediar a relação da criança com o mundo, acompanhar o que o filho tem visto”.

Mais especificamente sobre o “Jogo da Baleia Azul”, ele, que também é especialista em comportamento de crianças e jovens, diz que dentro do universo juvenil existe muito a autoafirmação, que é evidenciada em diferentes ações como rachas de automóveis, fazer selfies em lugares perigosos (correndo, efetivamente, risco de morte), entre outros. Ser desafiador é uma forma de se tornar respeitado e uma espécie de “influencer” para este grupo de pessoas.

O professor também aponta que entrar em jogos e competições como esses são mais comuns para jovens comprometidos emocionalmente. “Podemos presumir que, dificilmente, um jovem que não tenha um quadro de vulnerabilidade anterior se deixe levar por algo assim. Um jogo que envolve mutilação e suicídio vai atrair esse público vulnerável”.

Atenção aos sinais

Pedro de Santi reforça que, quando este tipo de assunto vem à tona, há uma tendência de as pessoas falarem que a culpa é da tecnologia. “O problema é como ela é mal utilizada a quem está entregue”. E completa, “você sabe que é um bom usuário de tecnologia se conseguir se desligar de vez em quando. Se isso não ocorrer, tenha certeza de que não está usando a tecnologia, mas sim sendo usado por ela”.

Mas, como dizem por aí, o “buraco é mais embaixo”.

Como mãe, sempre me pergunto se é possível não perceber que seu filho está passando por algum problema sério. Para o psicanalista, “é possível, sim, não perceber, pois essa mudança ocorre em pequenas nuances”. E há outro ponto que ele destaca como substancial para esta “não percepção”. Para ele, os pais costumam negar, usam o mecanismo de recusa e também desculpas para maquiar as mudanças dos filhos como, por exemplo: o jovem está diferente porque terminou o namoro, teve uma semana cansativa, etc. “É a onipotência de achar que em casa não vai acontecer”.

Professor Pedro de Santi, da ESPM-SP: "jogo que envolve mutilação e suicídio atrai público mais vulnerável"

Professor Pedro de Santi, da ESPM-SP: “jogo que envolve mutilação e suicídio atrai público mais vulnerável”

Ele acredita que pais e filhos nunca serão melhores amigos e que a melhor forma de auxiliar crianças e jovens é criando condições para terem espaços em que não sejam controlados. “Não temos intimidade com os pais e não é para ter mesmo. O ideal é criar condições para os filhos terem espaços como escola, terapia, amizades em que se sintam a vontade para se expressar”. O profissional garante que querer forçar o filho a falar o que está acontecendo, se está com algum problema, ou querer controlá-lo são coisas que, definitivamente, não funcionam.  “Querer controlar sempre é a pior opção”.

Mas se o diálogo em casa está difícil, como fazer a gestão do uso da internet pelos filhos, principalmente quando são mais velhos (adolescentes), sem ser tão invasivo e gerar conflitos? Para Bruno Prado, CEO da UPX Technologies e especialista em segurança na internet, a partir de sete anos a criança já possui uma personalidade formada e, por isso, o ideal é começar a educação digital antes disso. “O Comitês de Gestão de Internet (CGI), por exemplo, disponibiliza cartilhas com orientação para todas as idades sobre o uso seguro da Internet”. Veja aqui. “No ambiente digital, o crime parece não ser tão grave, pois as vítimas não estão presentes fisicamente, então, a impressão é que ‘dói’ menos”, comenta Prado.

Já para os jovens que, de repente, não se sentem confortáveis em dialogar com os pais ou parentes próximos, o professor Pedro de Santi orienta que busquem o máximo de informações possíveis sobre o assunto em questão e também sobre outras ondas que já passaram. “Conversar é fundamental. Você se torna uma presa mais fácil quando pensa que as coisas só ocorrem com você”.

Bruno Prado, CEO da UPX: "o ideal é começar a educação digital antes dos sete anos"

Bruno Prado, CEO da UPX: “o ideal é começar a educação digital antes dos sete anos”

O professor da ESPM-SP enfatiza que “é preciso falar sobre tristeza, sobre as coisas ruins. Entre existir a vontade e querer se matar há um abismo”. Falar sobre isso pode fazer a diferença na vida de quem se encontra em situação de fragilidade emocional.  “Há uma teoria, que anda na moda, que diz que o que você pensa acontece e o que não pensa não acontece. Isso é uma grande tolice. É preciso, sim, falar sobre violência, suicídio, depressão”.

O psicanalista lança algumas questões aos pais. “Um adolescente, hoje, olhando para os adultos, que vontade tem de dar o próximo passo, entrar na próxima etapa de vida? Que futuro estamos oferecendo para os nossos filhos? Mostramos a eles que vale a pena viver? Temos pais sempre reclamando do trabalho, temos corrupção, as pressões do dia a dia, um mundo perverso, sem esperança, ou seja, nada convidativo”.

Para ele, é preciso mostrar aos filhos que vale a pena virar adulto. “Pais desesperados, filhos fragilizados. Se os pais cuidarem bem de suas vidas, de sua felicidade, de sua integridade, certamente isso impactará o filho”.

O Jogo

Baleia Azul (Blue Whale) é um “jogo” em que o competidor precisa completar 50 tarefas, sendo a última delas tirar a própria vida. De acordo com artigo publicado recentemente no blog do repórter Fausto Macedo, também no portal Estadão.com (leia aqui), “um grupo oriundo da Rússia, conhecido como “#F57”, está sendo investigado devido à suspeita de que já teria induzido mais de 130 jovens, predominantemente na Europa, a cometerem suicídio desde 2015”.

O “jogo” não é aberto, é preciso receber um convite para participar. Uma vez iniciada a “competição” não é possível voltar atrás. Aqueles que tentam desistir sofrem ameaças, que se estendem aos familiares. Dentre os desafios estão ações como escrever com uma navalha o nome do “#F57” na palma da mão, cortar o próprio lábio e desenhar uma baleia em seu corpo com uma faca.

No Brasil, há suspeitas de que uma jovem de 16 anos, de Vila Rica/MT, e um rapaz de 19 anos, de Pará de Minas/MG, tenham cometido suicídio por conta do jogo.

 

Separamos vídeos de dois canais de YouTubers com grande expressão entre os jovens. Ambos servem para pais e filhos, talvez seja uma ótima oportunidade para assistirem juntos.

Dica do professor Pedro de Santi:  Canal Felipe Neto 

Dica dos meus filhos gêmeos, Guilherme e Vinícius: Canal Você Sabia? 

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