Seja ela de sangue, de ocasião ou por oportunidade. Pode ser uma prima, uma tia, a sogra, a irmã, a mãe de um amigo ou amiga. O que importa é que ao longo da nossa jornada teremos muito mais do que apenas a nossa mãe biológica.  

 

Inevitável não falar de mães durante a semana em que se comemora o dia delas. Fiquei pensando nas histórias de muitas que conheço e admiro, sendo que algumas nunca sequer engravidaram, mas têm se saído muito bem em seu papel maternal.

Fiquei pensando em quantas mães passaram pelo minha vida ao longo dos meus 43 anos, na sorte que tive e que tenho, até hoje, por ter me deparado com pessoas que sempre me trataram como muito amor, cuidado, carinho, atenção e que, sim, eu poderia dizer que atuaram como mães em minha trajetória.

Minhas primeiras professoras do prézinho (na minha época não existia o termo jardim de infância), Elaine e Eliane. Foi com elas que aprendi a ler e a escrever. Foram muito importantes no meu primeiro contato com a educação. Sempre generosas e sensíveis, despertaram em mim a paixão pelos estudos. As conheci aos cinco anos de idade e nunca me esqueci dessas duas figuras que, no quintal da casa de uma delas, decidiram fazer uma escolinha e se dedicar à educação dos filhos de outras pessoas. Seria injusto não mencionar que, nesta época, como era muito pequena, quando não havia nenhum adulto para me levar quem me acompanhava era a minha prima Léia (na maior parte das vezes era ela que me levava e buscava), também uma espécie de mãe naquele período, bem jovem, por sinal, já que tínhamos menos de dois anos de diferença de idade. Mas ter a companhia dela sempre me deixava mais segura. Quem é da periferia sabe que é muito comum irmãos ou primos mais velhos cuidarem dos mais jovens.

Outra mãe que tive, e tenho até hoje, é a minha madrinha Dalva. Ela, ainda bem jovenzinha e sem filhos, cuidou de mim depois que nasci. E quanto amor ela me ofereceu, e oferece até os dias de hoje. Vez ou outra se recorda da época em que eu era bebê, sempre dizendo coisas carinhosas e positivas. Quando não quero cozinhar na minha casa no fim de semana, é para ela que ligo perguntando se tem almoço e, claro, sempre tem.

Minha primeira professora do primário (hoje, conhecido como Fundamental I), dona Elda. Lembro com clareza do meu primeiro dia de aula. Cheguei meses depois do início do ano letivo e ela, como uma mãe protetora, ao invés de me jogar com a turma do fundão, onde eu seria, certamente, massacrada (pois era a mais jovem da turma), deu um jeito de colocar uma carteira bem colada à sua mesa. Dia após dia, com muita paciência, ia me atualizando sobre as matérias perdidas e me fazendo sentir parte do grupo já completo e adaptado. Em poucas semanas, era como se eu tivesse entrado no primeiro dia de aula como todos os outros alunos.

De sangue ou de coração: cruzamos com diferentes tipos de mães ao longo da vida/Foto: Pixaby

Ainda na seara escolar, dona Elizabeth, minha professora de História. Não tinha filhos e dizia pelos quatro cantos que nunca seria mãe. Mal sabia ela que já era mãe de mais de 300 crianças, seus alunos pelas escolas públicas da periferia de São Paulo, onde ministrava suas aulas. Era forte, austera, rígida, pegava no pé mesmo. Que mãe zelosa ela foi, sempre preocupada com o nosso futuro.

Minha tia Izalta, que demorou bastante tempo para ter filhos e sempre esteve presente em muitas situações da minha vida. Morei em sua casa durante um período e sabia que ela nunca ficava tranquila antes de eu chegar, típico de mãe. Sempre deixava comida pronta para quando eu chegasse da faculdade. Nunca me cobrou nada, muito pelo contrário, somente doou. Outra tia minha, que é mãe de muitos, incluindo sobrinhos, netos, bisnetos e agregados do bairro é a Terezinha. Sua casa, até hoje, vive aberta a todos que precisam.

Minha prima Célia, unanimidade em nossa família. Todos amam. Não possui filhos, mas tem um monte de afilhados – incluindo os meus filhos gêmeos. É aquela mãezona, sempre pronta para te ouvir, te aconselhar, te dar colo e oferecer um ombro amigo. Como não amar e não enxergar nela esse grande dom maternal?

Sem contar as mães dos amigos. Não poderia deixar de citar nesse texto a Marlene, mãe da Flávia, minha amiga de colégio. Já na adolescência, nos fins de semana eu me mudava para a casa dela. “Fechávamos” a rua com uma rede de vôlei e passávamos o dia jogando. A Marlene, que tinha três filhos e eu como agregada, fazia comida para um batalhão. Assim como cuidava de sua prole, cuidava de mim. Verdadeiramente me sentia uma filha querida naquela família.

E, claro, não poderia deixar de falar da minha mãe biológica, Amália, que sempre me apoiou nos estudos, sempre se preocupou com minha formação moral. Ela também é mãe de muitos. Na infância e juventude, me lembro que ela também fazia comida para um batalhão aos fins de semana, pois sempre aparecia um primo – ou vários – perguntando: “tia, tem comida aí?”. E ela sempre dizia: “claro, tá quentinha”. Era sempre um menu completo: entrada, prato principal e sobremesa. Assim como eu tenho e tive várias mulheres que considero como mães, a minha também deve ser considerada como mãe por muitos.

E de que vale tudo isso? Saber que, diariamente, em algum lugar, seja sua mãe de sangue ou não, alguém traz dentro de si um amor e um carinho maternal por você. Eu trago essa certeza dentro de mim, e o exemplo dessas mulheres incríveis com quem convivi e convivo tem ajudado, e muito, na minha formação como mãe. Essas lembranças são, com certeza, o meu maior presente.

E você, já parou para pensar em quantas mães tem ou já teve em sua vida?