“Como é que um mercado que a gente frequenta, onde conhecemos muitos funcionários, inclusive alguns que são gays, me entrega um conteúdo como esse?”, diz Vanessa Camargo. 

Ela tem nome de artista: Vanessa Camargo. Mas não é a filha do Zezé, é Vanessa com V, a garota que deflagrou uma comoção no Facebook, e nos veículos de mídia online, após ter publicado um post sobre a cartilha distribuída pela rede de supermercados Hirota. Escrita pelo pastor Hernandes Dias Lopes, a publicação traz conteúdos que condenam o casamento homoafetivo, sexo antes do casamento e relações não monogâmicas. Além de sugerir que mulheres casadas devem ser submissas aos seus maridos heterossexuais.

No capítulo “Os Pilares do Casamento”, um dos trechos traz a seguinte mensagem: “o casamento homoafetivo está na contramão do propósito divino e não pode cumprir o seu propósito. A relação homem e homem e mulher e mulher é antinatural, é um erro, uma paixão infame, uma distorção da criação”.

Vanessa Camargo questionou o conteúdo da cartilha em post que viralizou na web / Foto: Divulgação

Vanessa assumiu sua sexualidade aos 19 anos. Hoje, aos 29, possui um relacionamento estável com sua noiva Didi, 32.

Na primeira semana de dezembro, ela e Didi, foram à loja Hirota da Mooca, próximo à sua casa, e depois de pagarem pelas mercadorias receberam o cupom fiscal e a cartilha. Vanessa comenta que ela e a noiva acharam legal a proposta quando olharam a capa da publicação, mas quando começaram a ler, ainda no carro, se surpreenderam com o conteúdo.

No dia 10 de dezembro, Vanessa decidiu se manifestar sobre o livreto que a deixara tão indignada com um post no Facebook que, até o fechamento desta reportagem, já estava com 3,4 mil curtidas e 1.700 compartilhamentos. “Chegando em casa fui ler direito e pensei: que absurdo. Como eles entregam isso pra mim? Como é que um mercado que a gente frequenta, onde conhecemos muitos funcionários, inclusive alguns que são gays, me entrega um conteúdo como esse? É um local onde encontro com os vizinhos, o mercado é quase uma extensão da nossa casa”.

Segundo ela, o objetivo do post se manifestar para que talvez a rede retirasse a cartilha de circulação.

O Família Plural conversou com Vanessa sobre o ocorrido. Acompanhe a entrevista.

Família Plural – Qual o seu primeiro sentimento quando descobriu do que se tratava a cartilha?

Vanessa Camargo – Fomos olhar a cartilha com calma quando entramos no carro. Comentei com a Didi que tinha achado a capa bonita, colorida. Ela começou a ler e pensei: que absurdo. Frequento esse lugar com a minha noiva e eles dizem que não existimos? Me senti desconfortável, angustiada. Pensei: como eles entregam isso pra mim? Como é que um mercado que a gente frequenta, onde conhecemos muitos, inclusive alguns que são gays, me entrega um conteúdo como esse? É um local onde encontro com os vizinhos, o mercado é quase uma extensão da nossa casa.

FP – Quando e por que decidiu fazer o post no Facebook?

VC – O Facebook é uma rede pra amigos. Comentei com uma amiga e ela disse que ia fazer uma avaliação negativa na página do Hirota. Meu objetivo foi o de compartilhar com as pessoas próximas a mim, pois achei algo muito retrógrado.

FP – Você já havia passado por alguma situação dessas em algum outro lugar que frequenta?

VC – Nunca passei por isso, nem em lugares que frequento e nem nas empresas em que trabalhei. Imagine uma pessoa que trabalha nesse lugar, não poder revelar sua orientação sexual por medo de ser demitido. Se encontrar em uma posição que fere a sua dignidade. Fere a minha também, mas sou cliente, posso deixar de frequentar o local. Muitos vão dizer que temos de respeitar a liberdade de expressão. Não se trata de falta de liberdade de expressão, mas falta de responsabilidade social com a comunidade em que a empresa atua.

FP – Depois da publicação a empresa te deu alguma resposta?

VC – Eles responderam dizendo que a revisão foi feita por um funcionário que não se atentou ao conteúdo, que a intenção não foi feita para gerar desconforto. Didi e eu decidimos não frequentar mais o Hirota. Disse a ela que precisávamos tomar uma atitude que nos fizesse sentir minimamente respeitáveis, decidimos então não frequentar mais o supermercado. Estávamos dispostas a rever isso caso eles se posicionassem de forma diferente, dissessem que iam tirar a cartilha de circulação, mas isso não aconteceu.

FP – Como foi a descoberta e a exposição da sua sexualidade para as pessoas?

VC – Vivi uma fase nebulosa. Como não falamos abertamente sobre isso e não aprendemos ao longo da nossa vida, mas aprendemos, sim, o que as pessoas dizem pra gente o que é certo, você acaba não se encontrando. Me sentia um peixe fora d’água. Até ter minha primeira namorada, aos 19 anos. Não sigo nenhuma religião, mas tenho muita fé. Apesar dos meus pais não serem religiosos, minha avó é. Ela me ensinou coisas que iam contra o que eu sentia. Há 10 anos, quando me assumi, vivia em um tempo em que era mais difícil ser aceita. Se você era gay tinha de frequentar lugares para gays. Andar de mãos dadas na rua, no metrô, era mais difícil, eu tinha medo. Minha mãe me apoiou quando contei pra ela. Ela tinha muito medo de que eu me expusesse demais e sofresse algum tipo de agressão. O meu pai evitava o assunto, poucas vezes falamos sobre isso. Depois dos meus 25 anos é que conseguimos ter mais diálogo sobre isso, ele entendeu que não era uma fase. Aceitei o tempo dele, pois eu também tive meu de autoaceitação. Não é o fato de ser homossexual que vai mudar o meu caráter.

FP – Você acredita que o preconceito aumentou ou diminuiu nos últimos anos?

VC – Não acho que o preconceito aumentou. Antigamente, o poder de decisão de tudo estava nas mãos dos homens brancos cis, qualquer coisa que eles falassem dentro daquele grupo não soava como homofobia ou racismo. Hoje, as pessoas não toleram mais isso. O discurso preconceituoso não pode ser visto como liberdade de expressão. Não tenho a pretensão de que todas as famílias sejam iguais a minha, mas quero que a minha família seja respeitada em todos os ambientes que eu vá: mercado, restaurante, prédio.

Capa da cartilha distribuída pela rede de supermercados Hirota / Foto: Reprodução

 

Um dos conteúdos presentes na cartilha / Foto: Reprodução

 

Post feito por Vanessa no Facebook / Foto: Reprodução

 

Post feito por Vanessa após avaliar página do Hirota no Facebook / Foto: Reprodução

 

Pedido de desculpas da rede Hirota publicado em sua página no Facebook / Foto: Reprodução