Nem todo mundo possui boas lembranças da infância, mas posso dizer que, de todas as que ainda guardo na memória, muitas delas são boas. Principalmente aquelas vivenciadas antes dos 13 anos, quando oficialmente se inicia a adolescência.

Cresci em um bairro de periferia, no Parque América, quase chegando no Grajaú. Naquela época, as ruas não tinham nomes, mas números. Eu vivia na 21. Rua de terra batida, mesmo sendo uma das principais do bairro. Meus primos e eu tínhamos de calçar botas tipo sete léguas para chegar à escola quando chovia muito. Era um barro só.

Quase todo mundo da minha família morava por ali, diferença de algumas ruas para cima ou para baixo. De todos os lugares que eu mais gostava, um deles era o bar do meu tio Zezito. Desses que vendem ovos cozidos coloridos, salsicha acebolada e torresmo de origem duvidosa. Minha prima Léia (filha desse meu tio) e eu costumávamos usar a mesa de bilhar como apoio para fazer o dever de casa e, entre uma lição e outra, surrupiávamos um docinho e um refrigerante Gini ou Crush quando o meu tio não estava olhando – afinal, ninguém é de ferro.

O tio Zezito, irmão da minha mãe, é desses caras que todo mundo gosta, com muitas palhaçadas e sempre com uma história para contar. E aquele boteco era mesmo cheio delas.

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Nunca vou esquecer o dia em que ele passou numa escola de datilografia e matriculou a mim e a minha prima, preocupado com o nosso futuro. Eu tinha 12 anos e ela 14. De fato, são muitas lembranças.

Por mais que estejamos sujeitos a todo tipo de situação com nossos entes queridos, há algumas que achamos que não acontecerão com a gente. Ou, simplesmente, não queremos pensar que podem acontecer. Como o sumiço de um familiar. E eis que nosso querido tio Zezito nos pregou um imenso susto quando fugiu, na semana passada, de um grande hospital em São Paulo. Ele, que tem Alzheimer, estava internado para uma cirurgia cardíaca. Por algum erro de informação da enfermagem, meus primos não puderam ficar com ele todo o tempo – foram encaminhados para uma recepção que ficava em outro andar. No curto período em que ele permaneceu sozinho, arrancou o acesso que levava a medicação necessária para o corpo e saiu livremente pela porta da saída sem ninguém perceber.

Situação desesperadora, com familiares pelas ruas em busca do parente desaparecido, tentando refazer seus passos, adivinhar onde ele poderia ter ido. Mas como, se sua memória se vai a cada dia por conta do Alzheimer? Felizmente, o caso do meu tio teve um final feliz. Foi encontrado no final do Terminal Cachoeirinha, há quilômetros e quilômetros de distância de onde foi visto pela última vez, e mais distante ainda de sua casa, na Zona Sul. Uma rapaz puxou papo e percebeu que ele estava desnorteado, falando coisas sem sentido. Decidiu levá-lo a um posto policial próximo ao terminal, por sorte, ele estava com uma carteirinha de identificação e conseguiram localizar minha prima.

Quando a família chegou ao local, o bom cidadão havia ido embora, não ficou para um abraço, um agradecimento, nada. Mas temos a certeza de que ele sabe que nossa gratidão será eterna.

O que fazer quando alguém desaparece?

Alguns dados indicam que, no Brasil, mais de 200 mil pessoas desaparecem por ano, sendo a maioria crianças e idosos. Segundo o portal da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, se você tem um familiar ou um amigo desaparecido, deve, primeiramente, registrar um boletim de ocorrência, que pode ser feito pela Internet, na delegacia eletrônica, ou no distrito policial mais próximo à sua casa.

Há também inúmeros sites e ONGs que atuam neste segmento, o do governo federal: Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos. E um dos mais famosos, o Mães da Sé.

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