Criado em família evangélica, com pai e irmão pastores, Oswaldo Anderson Jr. acreditava que homossexualidade era doença, passou anos em busca da “cura gay”, casou-se com uma mulher, teve dois filhos e, mesmo com todos os conflitos psicológicos e pessoais, decidiu assumir sua sexualidade e tomar posse de sua felicidade

Oswaldo Anderson Jr. cresceu em uma família extremamente religiosa. Até os oito anos de idade, seus pais eram católicos fervorosos e, depois disso, se tornaram evangélicos, com seu pai cada vez mais assumindo responsabilidades dentro da igreja, até ocupar o lugar do pastor quando este se ausentava. Sempre foi um bom filho, do tipo quietinho, bonzinho, que não dava trabalho. Nunca teve interesse por esportes e costumava brincar de fazendinha. Era muito ligado à mãe, tinha um irmão espevitado e sempre ouvia a seguinte frase do seu pai: “imita o seu irmão”.

“Sempre fui excelente aluno, não dava trabalho em nada, na minha cabeça de criança eu fazia de tudo para ser um filho bom, todo mundo dizia que eu era bonzinho. Eu não conseguia entender essa fala constante do meu pai”, comenta Oswaldo.

Provavelmente, porque o pai enxergava algo que nem Oswaldo sabia ainda.

Com 10 anos, quando começou a pensar em namorar, percebeu que se sentia atraído por homens, mas assuntos homossexuais eram estritamente proibidos em casa, pois, segundo Oswaldo, para os pais isso era uma doença, uma consequência do diabo. “Meus pais não se tornaram evangélicos meia boca, mas realmente praticantes. Tenho um primo gay, por parte de mãe, e era um assunto proibido dentro de casa. Ninguém comentava o assunto e, quando ouvíamos qualquer piada mais homofóbica, minha mãe cortava, embora fosse um tema proibido, ela sempre nos ensinava o respeito”.

O tempo foi passando e Oswaldo chegou à adolescência com a ideia fixa de que precisava se apaixonar por uma menina, mesmo com a atração por meninos crescendo a cada dia. “Eu não era o tipo de menino que as garotas queriam namorar. Elas me viam como amigo e preferiam os mais masculinizados. Me sentia um peixe fora d’água”.

Sentimentos reprimidos na infância por conta da orientação religiosa. Foto: Pixabay

Até que, aos 13 anos, se apaixonou por uma menina da igreja. Porém, ela mudou de cidade e, com ela, levou seu coração e sua esperança de se sentir “curado”. O primeiro beijo foi com a mesma idade, com uma garota da escola. Namoraram por um mês e terminaram. Foi quando, aos 16 anos, ele se apaixonou por Guadalupe, a namorada do melhor amigo.

“Sonhei com ela uma noite e, no dia seguinte, estava completamente apaixonado. Comecei a me aproximar como amigo. E quando ela e o meu melhor amigo terminaram eu disse a ele que estava interessado nela. Ele disse que tudo bem. Então, começamos a namorar”.

Segundo Oswaldo, a mãe da namorada tinha uma cabeça mais aberta e não se importava com o fato de terem relações sexuais. Eles ficavam sozinhos em alguns momentos, mas não rolava sexo, pois ele não queria pecar. “A igreja dizia que sexo antes do casamento era pecado. A masturbação também era pecado, fui fazer pela primeira vez com quase 15 anos, e fazia apenas às sextas, pois assim achava que não estava pecando tanto. Namorei com a Guadalupe quase um ano e terminamos o namoro”.

Oswaldo conta que após o término do relacionamento entrou em depressão. “Toda a escola comentava que ela era virgem. À noite eu ficava acordado, pensando na atração que sentia por meninos, que era errado. Terminei o colégio e comecei a ficar com algumas meninas, sem levar nada a sério, com a desculpa de que ainda gostava da Guadalupe. Saía, olhava para os meninos, com muita discrição, mas algumas pessoas já me chamavam de gay”.

Cura gay

Formado em enfermagem, quando foi trabalhar em seu primeiro emprego, conheceu, no hospital, uma moça três anos mais velha. Começaram a namorar e, certa noite, a mãe de Oswaldo saiu e eles quase tiveram relações. “Eu não queria, pois não me sentia atraído. Naquele dia eu soube, de fato, que não queria namorar mulheres. Com a desculpa de que ainda gostava da Guadalupe, terminei. A Guadalupe era uma muleta”, nesta época, Oswaldo já estava com 18 anos.

Ele ficou sem namorar ninguém por um bom tempo. Até que surgiram os papos nos encontros de jovens, todos namorando, ficando. A primeira vez que teve contato com o homossexualismo dentro da igreja foi em uma apresentação de um pastor sobre cura gay. “Comprei um livro com a esperança de que tivesse cura. Quando eu sabia de algum pastor psicólogo eu mandava e-mail com o objetivo de cura. Uma vez fui procurar um psicólogo, amigo da minha prima. Eu já tinha 19 anos e nunca tinha transado com ninguém. Depois da terceira consulta, saí com minha prima, ela disse que o psicólogo tinha falado para ela que, quando eu transasse pela primeira vez, ia passar. Descobri que ele estava contando tudo para ela. Desisti das sessões”.

“Quando eu sabia de algum pastor psicólogo eu mandava e-mail com o objetivo de cura”. Foto: Pixabay

Com todo esse turbilhão de sentimentos e de incertezas, decidiu se entregar ao trabalho. “Comecei a trabalhar, e como não gostava muito de ir à igreja, porque sempre ouvia que ia para o inferno, fazia orações durante horas, todos os dias, para me livrar disso, e nada de resolver. Se estava indo à academia e tinha um menino pelo qual eu me sentia atraído, mudava de rota para evitar”.

Até que um dia, seu irmão, que hoje é pastor, o convidou para ir à igreja que frequentava. Quando chegaram ao local, ele olhou para a primeira menina que viu na sala do culto e pediu que ela cuidasse de Oswaldo. Naquele momento, seu destino foi traçado, pois ele não apenas começou a namorar com A., mas teve com ela sua primeira transa, aos 20 anos.

“Comecei a me apaixonar por ela, por ter uma história sofrida de um relacionamento anterior. Eu sempre me apaixonava pelas fragilidades dos outros, queria vê-la bem, ajudá-la a crescer, começamos a ficar muito juntos. Não havia atração, a gente não tentava transar toda hora porque era contra os preceitos da igreja. Depois da nossa primeira relação, eu disse a ela que teríamos de esperar o casamento. Estava chegando perto do noivado e eu cada vez mais aflito, pois não sabia o que aconteceria”.

Casamento e filhos

No ano de 2002, Oswaldo, com 22 anos, e A., com 27, se casaram. “Casei apaixonado por ela. Tínhamos uma vida sexual de mediana para ruim. No começo, acontecia uma vez por semana, uma vez a cada duas semanas. Ela não me cobrava sexo, mas eu me sentia cobrado”. No decorrer da relação, A. engravidou. O casal começou a ter problemas financeiros e foi viver na casa dos sogros de Oswaldo. Até que um dia, para espairecer e tentar encontrar soluções para os problemas que passavam, ele decidiu dar uma volta de bicicleta no Parque do Ibirapuera. A bike quebrou e um rapaz parou para ajudar. “Olhei e pensei: que moço bonito”. Começaram a conversar e, como Oswaldo estava de carro, o homem pediu uma carona. “Quando ele desceu do carro, me deu um beijo. Eu o empurrei e disse: tá maluco. E ele respondeu: eu sei que você gostou, quando quiser me liga. Fiquei maluco e no dia seguinte liguei pra ele”. Começaram a se aproximar como amigos. A atração começou a crescer e tiveram a primeira relação. “Enlouqueci. Ali, finalmente, descobri o que era sexo, não era mais uma obrigação, mas era prazer. No dia seguinte, voltei para casa, a A. ia fazer o último ultrassom, descobrimos que o bebê estava morto. Aí, na minha cabeça, era um castigo pelo pecado que eu havia cometido. Pensei: matei meu filho”.

Depois desse ocorrido, Oswaldo ligou para o amigo e pediu para ele nunca mais entrar em contato. Começou a se aprofundar na igreja, foi fazer um seminário de dois anos. Buscava todas as formas para que aquela sensação de atração por homens não acontecesse mais. Colocava a foto da esposa no retrovisor do carro, deixava bilhetes espalhados. Quando estava no segundo ano do seminário, se sentia livre. “Embora as relações sexuais não tivessem a menor graça, porque eu já tinha descoberto o prazer, no segundo ano de seminário eu já tinha nojo de gay”.

Nessa época, A. engravida novamente e eles têm o primeiro filho: A., que hoje está com 11 anos. “Ser pai era o meu maior sonho. Todo domingo íamos à igreja. Assumimos o ministério infantil e nos tornamos pastores de crianças”.

Oswaldo se casa e realiza um grande sonho: ser pai. Foto: Pixabay

As coisas pareciam ter voltado para os eixos. Até que, em sua rotina diária de ir para o trabalho, Oswaldo conhece um homem no metrô. “Tinha esse cara que me paquerava no metrô, um dia ele me parou e eu disse que não era gay. Dei um passa fora nele”. Com as coisas na igreja indo de vento em popa, e com o ministério infantil fazendo cada vez mais sucesso, o pastor ofereceu um curso para Oswaldo e para sua esposa com um dos melhores pastores, referência em ministério infantil, da América Latina. “Tomei um susto quando ele entrou na sala e o reconheci. Era o cara que me paquerava no metrô”. Desse dia em diante, o pastor começou a se aproximar mais de A., a ponto de ela o convidar para frequentar sua casa. Até o dia em que o pastor disse que se mudaria para o mesmo prédio de Oswaldo e A.. “O pastor e eu nos beijamos. Eu disse pra gente ir levando. Ele sempre muito próximo. Tínhamos uma promessa de ficar juntos, mas não transamos”.

Como o casamento ia de mal a pior, Oswaldo e A. decidiram ir para um encontro de casais. “Transamos aquela noite. Quando coloquei a cabeça no travesseiro, sonhei que estávamos em um centro obstétrico. Comprei a pílula do dia seguinte e ela tomou. Continuamos a vida, não melhorou nada depois do encontro de casais. Três meses depois descobrimos que ela estava grávida”. Nessa época, eles já falavam em divórcio, mas com a gravidez, Oswaldo desistiu da ideia. Ficaram juntos os nove meses. “Quando o pastor descobriu que ela estava grávida, se sentiu enganado. Quebrou o pau comigo e desapareceu. Disse que eu estava dando esperanças a ele, mas que transava com a minha esposa. Me afundei na igreja, por medo de achar que o bebê nasceria com problemas por conta dos meus pecados”.

Depois do nascimento de H., hoje com sete anos, a família foi fazer uma viagem para casa de parentes. Após uma situação constrangedora e uma discussão entre A. e Oswaldo, ele, finalmente, disse à esposa que queria o divórcio. Isso ocorreu em 2009.

Primeiro relacionamento homoafetivo

Mesmo decidido a se divorciar, demorou um tempo para Oswaldo sair de casa. A. não trabalhava, os filhos eram pequenos, o casal havia contraído dívidas. A vida estava uma confusão. Quando H. tinha seis meses, Oswaldo conheceu um homem dentro da piscina do Sesc. Trocaram telefone e começaram a conversar. Depois de um tempo, passaram a se encontrar e Oswaldo disse à esposa que estava fazendo um curso. “Iniciamos um romance. Eu tinha muito medo, mesmo assim ele me chamou para morar com ele. Falei para A. que ia sair de casa”. No dia 2 de fevereiro de 2010, Oswaldo se mudou para a casa de seu primeiro companheiro.

Na cabeça dele, após a saída de casa e o fato de assumir um relacionamento homoafetivo trariam uma certa leveza à sua vida. Mas não, “achei que todos os problemas estavam resolvidos, que não haveria mais traição, porque para mim a traição era por conta do desejo. Aí peguei a primeira traição dele, a segunda. Não confiava mais. Ele era um empresário de multinacional muito conhecido, ficamos juntos seis anos, mas o melhor amigo do trabalho dele não sabia da minha existência. Ele não contava para ninguém, eu estava com o armário de porta aberta e não podia contar para ninguém”.

Fora isso, o final do casamento com a A. foi bem turbulento. Um dia ela o chamou dizendo que precisava saber o real motivo do término da relação, pois se não soubesse não conseguiria seguir adiante. Oswaldo contou tudo. “Disse a ela que não era pra contar para ninguém, por conta das crianças, que não queria nos expor, estava no primeiro ano dessa nova vida. Aí, descobri que ela também tinha uma pessoa. Mandei um e-mail falando que eu precisava assumir o que eu era, mas que ela também precisava assumir o que ela era. Ela replicou o e-mail pra todo mundo. Foi na casa de todos os familiares, contou para todos que tinha um marido homossexual. Ela explodiu o armário. E eu não podia me assumir totalmente, pois o meu parceiro não ia se assumir”.

Depois de anos vivendo no anonimato, Oswaldo decidiu encerrar o relacionamento. “Disse a ele que estava cansado, que queria um parceiro, alguém fiel, alguém romântico”.

Livre para amar

Certo dia, Oswaldo, que além de enfermeiro também fazia seleção de novos colaboradores no hospital em que trabalhava, recebeu, via LinkedIn, um convite de um profissional da área de nutrição. Ele aceitou e o jovem passou o seu número de WhatsApp. Começaram a conversar. Tiago, que morava em Guararapes (SP), estava viúvo há quatro meses. Após três anos de casamento, o marido havia morrido por conta de uma dengue hemorrágica. A conversa que se iniciou timidamente, com assuntos profissionais, foi ganhando corpo e se estendeu para outras áreas.

Oswaldo (esq.) e Tiago durante a Parada do Orgulho LGBT 2017. Foto: Arquivo pessoal

Passaram a se falar diariamente, por horas e horas. Os quase 600 quilômetros que os separavam eram diminuídos em encontros via Skype. “Eu pensava: esse cara deve ter pesquisado minha vida, pois tudo o que eu queria ouvir ele falava”. Depois de um mês, não dava para ficar só no Skype e decidiram que era o momento de um encontro. Combinaram na metade do caminho, em Bauru. Oswaldo reservou um hotel e resolveram que o primeiro encontro seria em um local público. Seguiram para o Jardim Botânico da cidade. Foi lá que deram o primeiro beijo. “Depois, fomos para o hotel e passamos dois dias incríveis”. A partir desse dia, Tiago começou a procurar emprego em São Paulo. No terceiro encontro, Oswaldo apresentou seus filhos a ele. “Na hora vi que foi amor à primeira vista”.

Quando ligaram de um hospital para uma entrevista de emprego, Tiago se mudou para São Paulo e ficou morando na casa de uma tia. “Como a viuvez era recente, ele tinha vergonha de dizer que estava saindo com alguém”.

O ano era 2015, Oswaldo decidiu alugar um apartamento e, um mês depois, estavam morando juntos. Em dezembro desse mesmo ano, ficaram noivos. “Com a demonstração do amor houve a aproximação da minha mãe, a conquista dos meus sogros, o respeito do meu irmão pastor, o apoio de minha ex-esposa e o carinho de minha irmã e cunhado”.

Tiago (esq) e Oswaldo se casam em 2016. Foto: Arquivo pessoal

O casamento ocorreu em maio de 2016. Era uma manhã fria de sábado, ambos avisaram seus familiares, mas não sabiam se alguém apareceria, principalmente da família de Oswaldo. “Mesmo sem nada em troca, sem festa, sem um copo de refrigerante, quando chegamos ao cartório todos aqueles que nos amavam estavam lá. Minha família, a mãe do Tiago”.

Segundo Oswaldo, mesmo com todas as discussões e reviravoltas da relação, a mãe de seus filhos nunca o impediu de estar com as crianças. “Ela sempre manteve as crianças próximas a mim. Quando nos divorciamos, o H. tinha 6 meses e já ia para minha casa”.

A. se casou novamente em 2013 e, de acordo com Oswaldo, ela e Tiago se dão muito bem. “A família do Tiago levanta a nossa bandeira, é bem ativista, é todo mundo bem tranquilo, talvez por não ter religião envolvida. Por parte da minha família direta, mães e irmãos, todo mundo respeita, mas preferem manter o anonimato. Minha mãe, agora, está bem mais próxima da gente. Em relação à família do meu pai, são todos distantes, não aceitam”.

Em relação às crianças, embora aceitem e gostem muito do esposo do pai, o filho mais velho, A., que estuda em uma escola evangélica, começou a ter problemas com os colegas, que em algumas ocasiões dizem que o pai vai para o inferno. “Explico a ele que nasci assim e que escolhi viver uma vida de verdade. Tivemos uma conversa longa e melhorou muito. Mesmo assim, ele não quer que a gente ande de mãos dadas quando saímos com ele nem que o marquemos em fotos nas publicações das redes sociais”.

Oswaldo, Tiago e familiares no dia do casamento. Foto: Arquivo pessoal

Oswaldo contou ao blog que uma colega que estuda com A. pegou uma foto dele com Tiago e disse em um grupo da escola: “A., eu sei o seu segredo”. “Fomos até a escola, Tiago e eu, e falamos com o diretor. Sei que não podem falar de diversidade com as crianças. Mas não quero que meu filho sofra bullying”. O diretor disse que ia trabalhar a questão do diferente, mas não sobre a diversidade sexual.

“Ninguém é igual a ninguém. E é natural ser diferente”. Oswaldo finaliza dizendo que a luta não é apenas por respeito, mas para que esse conceito do ser diferente se torne natural na vida das pessoas, não apenas no que se refere às questões homoafetivas, mas em relação a tudo.

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