Co-working Familiar

Co-working familiar une pais e filhos em espaço adaptado para trabalho e atividades infantis

Por Claudia Pereira

13/03/2017, 08h00

   

Frequentadores dos espaços Casa de Viver, em São Paulo, e Malubambu, em Salvador, dizem que formato possibilita tranquilidade para realizar as atividades profissionais com mais calma e eficiência 

Assim como muitos pais e mães, não tive o privilégio de estar ao lado dos meus filhos gêmeos quando andaram pela primeira vez ou quando pronunciaram, desajeitadamente, a primeira palavra: “ága” (água). A Isabel, que cuidava deles enquanto eu trabalhava, me relatou de forma entusiasmada quando cheguei em casa, uma vibração tão grande que me fez pensar: “poxa, como fui perder estes dois momentos”.

Isso pode parecer bobagem ou sentimentalismo para alguns, mas para muitos têm um grande significado. Sou desse segundo time. Para alguns pais, o melhor dos mundos seria poder acompanhar o dia a dia dos filhos sem perder nenhum detalhe.

Essa ideia de trabalhar e poder acompanhar mais de perto o crescimento da filha não saía da cabeça de Carina Borrego, formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Entre 2013 e 2014, ela trabalhava em um grande escritório de direito e mal parava em casa. Iniciou, então, um processo de coach em que começou a visualizar um espaço que pudesse reunir pais profissionais, crianças e, ao mesmo tempo, ser um ambiente para aprendizados diversos. Passado um tempo, ela e a sócia, Fernanda Torres, formataram a Casa de Viver, co-working familiar localizado em São Paulo e que nasceu em 2015 com o objetivo de integrar pais e filhos dentro do mesmo espaço. O local conta com estrutura de escritório, com postos de trabalho, internet, sala de reunião, além de oferecer o serviço de cuidadoras especializadas para os pequenos.

Coworking_Divulgação Casa de Viver

Espaço das crianças no co-working Casa de Viver; abaixo, estações de trabalho onde os pais ficam. Fotos/Divulgação

Espaço das crianças no co-working Casa de Viver; acima, estações de trabalho onde os pais ficam. Fotos/Divulgação

“Nosso público-alvo são crianças de 6 meses a 3 anos e 11 meses, mas também acolhemos os mais velhos, que muitas vezes vêm do contraturno da escola”, comenta Fernanda Torres, mãe, psicóloga, doula e pós-graduada em Economia e Gestão das Relações do Trabalho.

Para as crianças menores, as atividades começam a partir das 9h e o local funciona como se fosse uma extensão do lar, onde os pais podem estar com os filhos no horário do almoço, do lanche e em algumas brincadeiras. Afinal, estão a uma escada de distância de suas crias. Cuidadoras elaboram brincadeiras como colagem, pintura, bambolê, música, etc. Já para os maiores, além de poder fazer a lição de casa, contam ainda com atividades motoras, como pular corda, e jogos diversos.

De acordo com Fernanda, não há problemas em ter um ambiente profissional em meio a outro com crianças. “O ambiente fica blindado. Quase não se escuta o barulho das crianças na parte de cima da casa, onde estão localizadas as estações de trabalho”. E completa, “Temos clientes que começaram quando seus bebês tinham seis meses e continuam até hoje. Os pais têm como acolher os filhos em todos os momentos. Na hora do cafezinho, podem descer e dar um colo. Com os pais se sentindo mais tranquilos, os filhos também ficam mais tranquilos”.

Fernanda Santiago Torres

Fernanda Torres, sócia da Casa de Viver, com os filhos Lívia e Theo/Divulgação

Em termos de valores, Carina e Fernanda, que possuem mais duas sócias, Luana Bottini e Luciana Jansen, pensaram em um preço que correspondesse a uma escola de educação infantil. A hora avulsa custa R$ 20,00 e os pacotes variam entre R$ 576,00 e R$ 1.590,00 (os valores incluem o uso da estrutura da casa e as frutas que são servidas para as crianças ao longo do dia).

Além de funcionar como co-working, a Casa de Viver presta consultoria para empreendedores que desejam abrir espaços como estes.

Do home office para o co-working familiar

Quando Manuela nasceu, o jornalista Thiago Baez, 28 anos, trabalhava em um escritório de comunicação. Sua esposa, Débora Baez, 29, também jornalista, decidiu que daria um tempo em suas atividades para cuidar da filha recém-nascida. Quando a pequena completou cinco meses, Thiago decidiu seguir carreira solo. “Meu pai sempre trabalhou muito e passava pouco tempo com a gente, e sinto que ele sofreu por ter perdido vários momentos da nossa infância. Por isso, decidi ter o meu próprio negócio para não dar apenas o bem material, mas também mais carinho, amor e atenção para minha família”, comenta.

Passou, então, a trabalhar em esquema de home office com a esposa, tornaram-se sócios em uma agência de comunicação. “Vimos que poderíamos unir nossos conhecimentos e ter nosso próprio negócio”.

O casal decidiu colocar a pequena Manu em uma escolinha, mas “ela não se adaptou muito bem, chorava muito, sentimos que não estava sendo legal”, explica Thiago. Optaram por retirar a filha da tal escola. Passado um tempo, conheceram a Casa de Viver. “Vimos que era um local para unirmos as duas coisas, o lado profissional e o lado materno/paterno. Estando lá, sentimos tranquilidade para exercer nosso trabalho com calma e eficiência, pois qualquer coisa que acontecer é só descermos a escada. Ganhamos no lado humano e no profissional”, comenta o pai.

Thiago e Débora, frequentadores da Casa de Viver, brincam com a pequena Manuela/Divulgação

Thiago e Débora, frequentadores da Casa de Viver, brincam com a pequena Manuela/Divulgação

Thiago conta que ele e Débora fazem todas as refeições com a filha. “Assim que chegamos, deixamos a Manu no espaço das crianças, ela já está bem adaptada, no começo ficávamos com ela, íamos saindo aos poucos. Lá para meio-dia, descemos e almoçamos, depois brincamos e interagimos com as outras crianças. Se ela está chateada com algo, descemos e damos uma atenção”. O casal possui um pacote em que vão todos os dias e ficam na casa das 9h às 18h.

“A primeira infância é muito importante, quero acompanhar a minha filha. Poderia estar ganhando mais em uma grande empresa, mas estaria perdendo toda essa evolução dela”, diz Thiago. Hoje, Manuela tem um ano e seis meses.

Colinho e segurança

Segundo Martha Gieseke Meniconi, 38 anos, psicóloga clínica ampliada pela Antroposofia e que possui um trabalho direcionado para mães, gestantes e famílias, crianças que são acompanhadas pelos pais têm os limites mais claros e se sentem mais seguras, ao contrário daquelas que passam muito tempo longe, e que os pais, para compensar, podem se tornar permissivos, comprometendo o senso de limite e deixando a criança insegura. “A proximidade dos pais também beneficia a sociabilidade da criança, ao contrário do que se pensa, favorecendo o convívio com outras pessoas, a construção da individualidade e até a amplitude do paladar”.

Sobre ter pais e filhos convivendo em um mesmo espaço durante o horário de trabalho ou período escolar, a profissional diz que a presença dos pais em ambiente próximo não atrapalha seus filhos. “Ao contrário, dá eles conforto e sensação de segurança, sabendo que se precisarem podem contar com eles. Dessa forma, favorece que a criança se lance à descoberta, à exploração do espaço e das coisas ao redor, incluindo as relações, desenvolvendo, dessa forma, sua independência”.

Casa de brincar se transforma em co-working familiar na Bahia

A publicitária Brisa Benjamin, 36, mãe de Bento, 3, não conseguia conciliar a maternidade com a vida que levava na agência em que trabalhava. Assim como o casal paulistano, Thiago e Débora, decidiu seguir carreira solo e, atualmente, trabalha como redatora freelancer e consultora criativa.

Mesmo passando mais tempo com o filho, veio a necessidade de colocá-lo em um ambiente de socialização infantil, de livre brincar. Foi quando descobriu o espaço Malubambu, em Salvador. “É um espaço bem interessante, que promove a socialização das crianças. Ao mesmo tempo que dou uma estrutura segura para o meu filho, com brincadeiras lúdicas e com direcionamento pedagógico, tenho tempo para me dedicar ao trabalho. No começo, eu dizia que ele ia ficar lá brincando e eu trabalhando, às vezes ele ia me ver”.

Da janela do coworking Brisa observa Bento brincar no quintal - FOTO Maria Isis

Brisa e o filho Bento no espaço Malubambu. Acima, ela observa o filho enquanto brinca no espaço para as crianças. Fotos: Maria Isis

Brisa e o filho Bento no espaço Malubambu. Acima, ela observa o filho enquanto brinca no espaço para as crianças. Fotos: Maria Isis

Brisa e Bento estão no Malubambu há um ano e meio. “Eu não queria colocar meu filho na escola muito cedo. Queria colocá-lo em um ambiente em que ele pudesse socializar e evoluir com crianças de várias idades. Esta experiência no Malubambu foi de extrema importância, pois quando ele teve de ir para escola não teve choro, já estava adaptado. Para mim, além de funcionar hoje como um contraturno escolar, funcionou como uma opção pré-escolar”.

Segundo Mariana Pedreira, sócia e fundadora do Malubambu, o espaço nasceu há cinco anos com a ideia de ser um local para o livre brincar. “Ao longo desse tempo, percebíamos os pais com notebook, livros, que tinham a necessidade de ter um espaço para adiantar o trabalho. Nascia um movimento de famílias querendo as duas coisas: estar com a criança e se dividir para dar conta do trabalho, mas no final acabavam não dando conta de nenhuma delas”.

Mariana Pedreira, sócia fundadora da Malubambu/Maria Isis

Mariana Pedreira, sócia fundadora da Malubambu/Maria Isis

Assim, há três anos o Malubambu aderiu ao esquema de co-working familiar, onde possui uma sala com total estrutura para os pais que precisam trabalhar e cuidadoras que ficam com as crianças desenvolvendo os mais diferentes tipos de atividades que vão desde oficinas de artes e música até aulas de circo. “Após este formato, sentimos que quando os pais que estão trabalhando no espaço descem para ficar com os filhos a entrega é muito maior, mesmo que seja por 10 minutos. Melhor do que se tivessem ficado a tarde toda, mas sem saber se concentrava no filho ou no trabalho”.

O Malubambu possui algumas restrições quando a criança é muito pequena (precisam estar o tempo todo acompanhadas). O valor para a utilização do co-working é de R$ 5,00/hora, já as atividades infantis são pagas à parte, sendo R$ 35,00/hora. O espaço também oferece pacotes com valores especiais.

Outras opções de co-working familiar

Mamaworking – Curitiba (PR) | (41) 3362-8612

Brincar no Quintal – Sorocaba (SP) | (15) 3036-3003 ou (15) 9 9709 4479

Projeto Oca – Campinas (SP) | (19) 9 9236-2727 ou (19) 9 8217-8591

 

Mande sua história ou sugestões de matéria para os e-mails familiaplural@estadao.com e familiaplural@gmail.com

Acompanhe a gente também no Facebook: @familiaplural

Comentário(s)

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.