No Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia  e Transfobia, conversamos com órgãos públicos, juristas, professores, advogados, empresas e influenciadores sobre a importância em se discutir a homofobia e saber, na opinião deles, porque grande parte da população ainda resiste em aceitar que este é um tema que merece estar em pauta

 

O dia 17 de maio é conhecido como o Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia  e Transfobia, pois, nesta mesma data, em 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças. Ela passou, então, a figurar como símbolo da luta pela diversidade sexual, por direitos humanos e contra a violência e o preconceito.

Segundos estudos do Grupo Gay da Bahia, a violência contra o público LGBTI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, intersexuais), em 2017, foi 30% maior que no ano anterior, com 445 mortes documentadas contra 343, respectivamente. De acordo com a entidade, 52% dos homicídios contra LGBT no mundo ocorrem em terras brasileiras, colocando o Brasil como um dos mais violentos contra esse público (saiba mais sobre os números da violência aqui).

Diante desse debate, quem tem ganhado visibilidade, mas que ainda gera muita polêmica, o  Família Plural foi conversar com órgãos públicos, juristas, professores, advogados, empresas e influenciadores LGBTI+ a respeito da importância em se discutir a homofobia e saber, na opinião deles, porque grande parte da população ainda resiste em aceitar que este é um tema que merece estar em pauta.

A secretária municipal Eloisa Arruda/ Foto: Divulgação

“Essa discussão é importante porque só a compreensão de que os seres humanos são diversos e complexos é que pode levar ao respeito da condição de cada um. Quanto mais compreendermos a diversidade – bem como que o que nos unifica é a condição humana – mais estaremos próximos de reconhecer e respeitar as diferenças. As pessoas resistem por questões culturais, históricas, religiosas e até por mero desconhecimento. Temos padrões historicamente firmados e reforçados, fora dos quais as pessoas são consideradas “anormais”. Por isso, nem sempre as pessoas querem tocar no assunto, até para não serem obrigadas a rever conceitos. Nem todo mundo tem coragem o suficiente para isso”.

Eloisa Arruda, Secretária Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Cidade de São Paulo

 

Ricardo Sales é consultor e pesquisador/Foto: Divulgação

“Diversidade é um assunto importante por conta de três dimensões: sociedade, organizações e pessoas. Em relação à sociedade, vivemos num país violento e desigual, que figura na lista dos mais violentos contra a população LGBT. O ambiente de negócios não está separado do ambiente social, por isso este tema chega também às organizações. Além disso, pesquisas associam as políticas de inclusão a mais engajamento e inovação no ambiente de trabalho. Por fim, discutir diversidade nos faz pessoas mais empáticas e permite que, a partir do nosso trabalho, possamos promover as mudanças que queremos ver no país. O Brasil é um país conservador, mas que, paradoxalmente, gosta de se ver como tolerante e naturalmente aberto às diferenças. Ainda existem resistências, mas houve avanços significativos nos últimos anos, como a criação do Fórum de Empresas e Direitos LGBT, a articulação de movimentos ativistas e a emergência de coletivos feministas, negros e LGBTs em universidades de todo o país”.

Ricardo Sales é consultor de diversidade e pesquisador na USP, onde cursa doutorado. Foi eleito pela Out&Equal um dos brasileiros mais influentes no tema diversidade nas organizações.

 

Fabio Mariano é professor da PUC-SP e atua em projetos com foco na visibilidade Trans/Foto: Divulgação

“Várias frentes tem se formado em torno do tema da Diversidade. Percebemos essa discussão a respeito das diferenças na universidade, na moda, em campanhas publicitárias, no meio cultural e outros. Tudo isso colabora para a disseminação de conceitos e ideias sobre as diferentes vivências que se dão a partir da sexualidade, mas não só dela, à medida que somos sujeitos complexos e inseridos no meio social. Massificar essa discussão contribui para ambientes de construção coletiva de respeito e inclusão das pessoas. As resistências são de várias ordens, mas é preciso levar em consideração uma onda conservadora que continua a referendar um padrão em torno da sexualidade humana e que inclui a identidade de gênero e a orientação sexual. Hegemonicamente aprendemos a pensar sempre em certo e errado, sem levar em consideração que não há padrão a ser seguido, já que somos construções sociais. Meninos nem sempre gostam de azul e meninas nem sempre devem gostar do rosa. É necessário pensar para além da caixinha e refletir sobre outras vivências. Além disso, essa é uma pauta que precisa ser desmistificada de maneira adequada desde os bancos escolares”.

Fabio Mariano, professor da COGEAE /PUC-SP, palestrante e idealizador de projetos com foco na visibilidade Trans

 

Aline Tieppo, da Sodexo/Foto: Divulgação

“Em um mundo repleto de extremos, a discussão da diversidade faz com que as diferenças entre os indivíduos sejam respeitadas, o que é essencial para um maior equilíbrio da sociedade. No caso das organizações, a Sodexo acredita que as ações de diversidade e inclusão proporcionam equipes mais colaborativas, colaboradores mais felizes e consequentemente times mais engajados, o que, consequentemente, impacta na produtividade da empresa. Neste contexto, a companhia  oferece um ambiente inclusivo para colaboradores LGBT+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e todas variações), pois promove uma cultura corporativa que aceita todas as diversidades, visíveis ou não. Um exemplo disso é o Pride, iniciativa global do Grupo Sodexo que visa conscientizar, educar e incluir sobre o tema LGBT. Lançado no Brasil em fevereiro de 2016, o grupo tem cerca de 140 membros, todos colaboradores da empresa, entre aliados e comunidade LGBT. Tudo o que é diferente do pré-estabelecido, pode assustar as pessoas. Infelizmente, o que para alguns pode ser fonte de reflexão, mudanças e amadurecimento, para outros, mais rígidos, é fonte de raiva, que se expressa de várias formas, como preconceitos e atos de intolerância e até de violência. Acredito que os preconceitos são combatidos com a convivência e a integração entre as pessoas, e a discussão da diversidade é a uma das únicas maneiras de fazer com que isso aconteça. A Sodexo realiza debates constantes sobre o tema, como por exemplo, a 4ª reunião do Pride, grupo de afinidade composto por colaboradores LGBT e colaboradores aliados, realizada hoje e que debateu o que representa o Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia  e Transfobia; quais os termos utilizados para falar sobre o assunto; os principais dados sobre o tema no Brasil e outros. Essa é uma oportunidade de reforçar a importância dos aliados na luta contra o preconceito dentro e fora do ambiente corporativo”.

Aline Tieppo, gerente de Comunicação Interna e Diversidade e Inclusão da Sodexo Benefícios e Incentivos

 

Marcelo Gallego é advogado e assessor jurídico da Coordenação de Políticas LGBTI+/Foto: Divulgação

“O ser humano é único, livre e igual. A diversidade deve ser celebrada dentro e fora das organizações. O ser humano é o único animal racional, com possibilidade de construir uma rede de relações plural e múltipla. É maravilhoso construir um ambiente laboral onde todos são diversos, pois cada colaborador possui uma história, uma trajetória singular que proporciona a troca de experiências. Garantir a diversidade dentro de uma organização demonstra que, apesar de todas as diferenças, somos inteligentes o suficiente para construir uma união em cima de um objetivo único e conquistar resultados extraordinários.  A resistência consiste, principalmente, pelas crenças pessoais (não só de cunho religioso) e pelo viés inconsciente de boa parte dos gestores e do próprio time de recrutadores. Todos nós possuímos alguma espécie de viés inconsciente, uma vez que nosso cérebro pode demorar menos de 1 segundo para julgar se determinada pessoa é confiável ou não. Isso decorre, principalmente, das experiências de vida de cada indivíduo, que gera um conjunto de estereótipos do que é certo ou errado. Isso acaba por determinar uma escolha de um perfil similar inclusive nas relações pessoais. O viés inconsciente, dentro das organizações, reflete principalmente nas contratações, resultando em equipes uniformes e com o mesmo perfil escolar, racial, social e dentro de um padrão heteronormativo”.

Marcelo Gallego, advogado, assessor jurídico da Coordenação de Políticas LGBTI da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania

 

 

Maira Reis é Jornalista LGBTI+ e palestrante/Foto: Divulgação

“Quando você tem o número de 445 pessoas LGBTs mortas, em 2017, segundo dados do Grupo Gay da Bahia, ou seja, 30% a mais do que em 2016, essa é a hora de pensarmos em como a LGBTfobia está impactando na nossa sociedade – e isso se reflete tanto nas organizações como na nossa vida. Além disso, por que só pessoas heterossexuais e cisgênero têm os seus espaços na sociedade reconhecidos e garantidos, enquanto outra comunidade, a das pessoas LGBTs, precisa permanecer à parte da vida social e com dificuldade de acesso ao mercado de trabalho? Se somos diversos por natureza (socialmente, culturalmente e biologicamente) porque não podemos conviver mutualmente e respeitar as nossas diferenças? É importante discutir a diversidade, pois é assim que nos reconhecemos como humanos, cada um ou cada uma com a sua específica orientação sexual e identidade de gênero. Isso é maravilhoso! Vivemos em uma sociedade em que é “natural” ser homem, machista, heterossexual e cisgênero. Fugir desse padrão significa ser estranho, ser julgado dia após dia e ter que praticamente “sair do armário” a cada novo grupo social que passar a frequentar, a cada nova empresa em que começar a trabalhar, etc. Ser diferente é ser LGBT+. É ser ousado / ousada para ter peito e lutar para sobreviver contra o ódio, o estigma e o preconceito. Se as pessoas, por um minuto, entendessem que tudo isso poderia acabar caso respeitassem e entendessem que há diversidade no mundo, além do padrão social brasileiro, e tudo bem…. Com certeza esses números de LGBTfobia poderiam desaparecer”.

Maira Reis é Jornalista LGBT+ e palestrante

 

 

A juíza Andréa Pachá/Foto: Arquivo Pessoal

“Foram muitos anos de invisibilidade. São muitos anos de preconceito. Celebrar o Dia Internacional Contra a LGBTfobia é uma maneira de afirmar o compromisso com a compreensão de que o mundo é e deve ser plural, e que a diversidade permite que experimentemos uma convivência mais humana, mais livre, mais democrática. É da pluralidade que nasce a riqueza de uma sociedade. Que a data de hoje seja simbolicamente assimilada como nosso compromisso de trabalhar para que os direitos sejam verdadeiramente acessíveis para todas, todos e todxs”

Andréa Pachá, juíza e autora dos livros ‘A vida não é justa’ e ‘Segredo de Justiça’

 

 

Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB). Foto: Arquivo pessoal

“De modo geral, a maioria das pessoas possui preguiça mental, às vezes, nem é preconceito, mas essa preguiça acaba estimulando o preconceito, porque é mais fácil negar do que fazer uma participação inteligente sobre o tema. Penso que homens e mulheres cisgêneros não se interessam muito em conhecer essa Diversidade e, com isso, eles acabam negligenciando a defesa da democracia cidadã, por ignorância revestida de preconceito. Discutir isso nas organizações é importantíssimo e quero fazer referência aqui a necessidade e urgência que as empresas e órgãos públicos têm de implantarem o Estatuto do Trabalho Socialmente Responsável, que estabelece as formas e normas de tratamento entre os colegas no chão da fábrica e também o manejo de lidar com fornecedores, por exemplo. Muitas das vezes o preconceito se dá na relação colega com colega no local de trabalho. Mesmo que pese sermos cerca de 10% da população brasileira e os avanços nos últimos após trinta e sete anos de fundação do GGB, as pessoas não levam esse assunto a sério, por vários motivos, isso estimula a violência, por exemplo. Em 2017, o GGB contabilizou no Brasil, mais de 400 homicídios contra LGBTs. Eu penso que isso reflete sobretudo um aspecto cultural da sociedade brasileira que sempre considerou, e ainda considera, LGBT como indivíduos de segunda categoria.”

Marcelo Cerqueira, professor, presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), principal entidade do gênero (fundada na Bahia pelo antropólogo paulistano Luiz Mott, em 28 de fevereiro de 1980)  

 

Colaborou Adriana Del Ré