Considerados membros da família, pets levam ao ambiente de trabalho, segundo pesquisas, benefícios à saúde e aumento da produtividade; o blog ouviu as histórias de alguns tutores que comprovam isso

Costumo passar com certa frequência na frente de uma loja especializada em fotografia e presentes no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Certo dia, vi na porta do local um cachorrinho lindo, usando crachá, como se fosse um funcionário do estabelecimento. Devia ser uma espécie de recepcionista, eu concluí, já que ele ficava bem na frente da loja recebendo os clientes. Logo depois, me diverti com meus pensamentos: afinal, eu estava tentando imaginar qual cargo ele ocupava ali! Lembrei da história do famoso Negão, cachorro abandonado que foi adotado pela dona de um posto de gasolina em Mogi das Cruzes (SP), e passou a circular pelo local com uniforme e crachá.

Pensei não só na sorte que esses cachorros têm de serem tão amados, mas também no privilégio das pessoas que podem conviver com eles durante horas, em seus ambientes de trabalho. Resolvi, então, conhecer a história do cachorrinho-recepcionista, chamado Cookie. Conversei com sua tutora, Avila Benaya, de 22 anos, filha da dona da loja Josy Fotos e que também trabalha lá quando está em São Paulo. Avila mora atualmente em Campinas e estuda Física na Unicamp, mas vem para São Paulo nos finais de semana e feriados. Cookie vive na casa de sua mãe – e se tornou o grande xodó de toda a família.

Avila e Cookie na frente da loja. Foto: Alexandre Lima

Avila adotou Cookie quando ainda morava no Sul do País, antes de estudar em Campinas. Ela fazia faculdade em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Muitos cães e gatos são abandonados nos câmpus, e o pessoal da universidade costuma resgatar, cuidar e colocar os animais para adoção. Sozinha, longe da família, Avila conta que estava com depressão. Uma amiga, então, sugeriu que ela adotasse um dos bichinhos abandonados nos câmpus. Ela viu a foto de um cachorrinho branco e preto, e se apaixonou.

Já devidamente batizado de Cookie – por causa da composição de suas cores, que faz lembrar a bolacha doce -, ele passou a viver com a estudante. “O Cookie fez muita diferença na minha vida depois que chegou.” Após um período no Sul, Avila conta que ligou para a mãe, Josy, e, desesperada, pediu para que ela fosse buscá-la. Imediatamente, lá foi Josy, de carro, de São Paulo até Rio Grande, e voltou com a filha e Cookie.

E Josy foi logo conquistada por Cookie. Aliás, partiu da mãe a ideia de o bichinho de estimação usar um crachá de funcionário da loja. Avila diz que a inspiração veio da história do cachorro do posto de gasolina – sim, o Negão. Avila e Josy passaram a levar Cookie para a loja quando a casa delas passou por reformas. Mas Cookie gostou tanto de ir com elas todos os dias até lá que acabou sendo ‘efetivado’.

Fica fácil entender por que Cookie gosta tanto de ‘trabalhar’ na loja: além de ter um lugar reservado para poder comer, beber e descansar, ele fica perto de suas tutoras e recebe o carinho dos outros funcionários e dos clientes. Nunca ninguém se queixou dele, Avila garante. “Tem clientes que vêm na loja só para vê-lo, às vezes, mais de uma vez por dia. Também conquistamos clientes por causa dele: pessoas que entraram para vê-lo e acabaram comprando aqui”, diz ela. “Conheci muita gente, fiz muitas amizades por causa do Cookie.”

O fofo Cookie. Foto: Alexandre Lima

O que reforça a ideia de que o animal de estimação faz parte da família. “Ele é nosso mascote, nosso filho, nosso psicólogo”, derrete-se Avila.

Qualidade de vida. Segundo o psicólogo Roberto Debski, os pets proporcionam uma ampliação do afeto, do cuidar e ser cuidado, de sentir-se útil, amar e ser amado sem outros interesses. “Ter um animal de estimação faz com que as pessoas se tornem mais responsáveis, atentas, cuidadosas e, ao mesmo tempo, recebem em troca carinho, lealdade e amor. É uma relação em que todos ganham, ampliando a saúde e a qualidade de vida.”

Sobre animais de estimação dentro do local de trabalho, o psicólogo afirma que ainda não há um número expressivo de empresas pet friendly, mas elas vêm aumentando. “Tudo começou com algumas startups e empresas que trabalham com o mundo pet. Essas empresas permitem que se traga animais de estimação para a rotina diária, e os resultados vêm sendo muito positivos. Estudo realizado no Hospital Veterinário de Banfield, nos Estados Unidos, demonstrou que sete em dez colaboradores perceberam mudanças extremamente positivas”, comenta ele.

“Dentre eles, 93% relataram maior motivação e redução nos níveis de estresse, 91% sentiram sua vida pessoal e profissional mais equilibrada e se tornam mais dedicados à empresa. Além disso, também reduz a culpa de deixar os pets em casa.”

De acordo ainda com Debski, pesquisas realizadas por outras instituições também apresentam resultados semelhantes, “comprovando que a presença de pets em ambientes de trabalho, desde que não haja impedimentos técnicos e legais, se mostrou muito benéfica para a saúde, qualidade de vida, melhor percepção do ambiente organizacional e aumento da produtividade”.

Ana Luiza com Chanel (branca) e Theo. Foto: Nubank

O Nubank, que atua no mercado financeiro sem canais físicos, é uma dessas empresas no Brasil em que os bichinhos de estimação de seus funcionários são bem-vindos. Ana Luiza Bove Santos, de 27 anos, e brand manager da empresa, leva seus cães Theo, de 6 meses, e Chanel, de 11 anos, de uma a duas vezes por semana ao trabalho. “Claramente a gente tem um ambiente mais alegre, mais divertido”, garante Ana Luiza.

Ela conta que mais de 50% dos funcionários atuam no atendimento, e, num dia mais estressante, a presença dos pets faz toda a diferença. “As pessoas são muito mais felizes.”

O terraço funciona como uma espécie de área comum dos cãozinhos, onde eles encontram vários brinquedos – e podem passar boa parte do dia. Atrás da mesa de Ana, tem uma caminha para seus pets descansarem. E um colega ajuda o outro. Quando alguém, por exemplo, precisa sair ou resolver alguma coisa, pede para outra pessoa olhar seu cachorro. “Em geral, eles ficam com coleira, a gente só tira em áreas abertas e quando está em sala.”

Essa convivência com os pets também influencia o modo de vida e de pensar dos funcionários. Além de mapear restaurantes nas imediações que aceitam cachorros, eles usam meios de comunicação internos para trocar informações sobre pets que estejam para adoção.

Luli com Zé. Foto: Acervo pessoal

Em seu escritório, também em São Paulo, a produtora cultural Luli Hunt, de 53, costuma ter, no local de trabalho, a companhia de dois ‘funcionários’ especiais: o estagiário Zé Mané, de 6 anos, e a subestagiária Juju Balangandãs, de 1. “Muitos clientes mudam o dia da reunião para quando o Zé esteja no escritório”, diz Luli.

“Fica tudo mais fácil, as pessoas gostam de brincar, trazem biscoitinhos”, conta ela. “Trabalho com produção, que é tenso e acho que a presença deles dá uma relaxada. Você brinca com o cachorro, ele deita no seu pé.”

Zé chegou à vida de Luli depois que seu outro cãozinho, Jack, morreu. Ainda triste com a perda de seu pet, Luli viu Zé numa loja de shopping e foi amor à primeira vista. Já Juju, vítima de maus-tratos, foi resgatada por uma ONG. Com Zé e Juju juntos, Luli formou, como ela brinca, sua dupla “black and white”.

Zé e Juju. Foto: Acervo pessoal

Lição de autocontrole. Na Gaia Escola de Astrologia, na Vila Mariana, os colegas de trabalho dos funcionários são duas simpáticas gatas: Sol, de 10 anos, e Céu, filha da Sol, de 9. “Elas não têm acesso à rua. São extremamente amadas e mimadas pelos alunos, e existe uma convivência bastante harmoniosa com todos”, diz a taróloga Luiza Papaleo, sócia-proprietária e diretora do local. “Têm acesso às salas de aulas, assistem às aulas, ficam pelo pátio, dormem, brincam e para elas não há restrição. São amáveis, calmas e interagem bem com todos.”

Sol foi encontrada pelo filho de Luiza com poucos dias de vida jogada num lixo, machucada e com a bacia fraturada. Ele a levou para casa e ela recebeu tratamento veterinário, mas, como havia outras gatas ali, não houve uma boa adaptação entre elas. Então, após sua recuperação, Sol foi levada para a Gaia, onde reinaria sozinha. Pouco tempo depois, Céu, sua filha, se juntaria a ela.

A dupla: Céu (preta) e sua mãe, Sol, numa das salas da Gaia

“Elas trazem ao ambiente um ar de leveza, alegria, descontração e tranquilidade, distraem as pessoas. Dão amor e recebem amor. Além de que o gato nos dá a lição de calma, tranquilidade, autocontrole, autocuidado”, afirma o astrólogo Robson Papaleo, marido de Luiza, também sócio-proprietário e diretor do espaço. “A presença delas é muito agradável e despertam o melhor das pessoas. Não vejo a Gaia sem elas. Elas fazem parte e são fundamentais no ambiente da escola.”

Em memória ao cachorro Negão, o famoso funcionário do posto de gasolina em Mogi das Cruzes, em São Paulo, que morreu em fevereiro deste ano

Negão, que ficou famoso por trabalhar num posto de gasolina. Foto: Acervo pessaol de Sabrina Plannerer

 

Comentários e sugestões de pauta devem ser encaminhados para os e-mails familiaplural@estadao.com e familiaplural@gmail.com

Acompanhe a gente também no Facebook: @familiaplural