A pior coisa que pode ocorrer a um mágico é ter seus truques descobertos e divulgados por um desses boquirrotos que parecem ter nascido com a vocação de apregoar com o megafone produtos de limpeza ou pamonhas pelas ruas.

É uma desgraça. Quando isso acontece, lá se vai o que um mágico tem de mais precioso: a vontade do público de ser iludido por ele. Todos sabem que, quando ele faz sair um coelho de sua cartola, está enganando quem quer ser enganado. Ele está certo quando faz isso. É um truque. Só não pode admitir como funciona o truque.

O mágico precisa ser um mentiroso convincente. Ele, e só ele, há de ter direito de mentir ao público. No momento em que os espectadores percebem que qualquer um pode mentir como se fosse mágico, desfaz-se todo o encanto.

Com os escritores costuma acontecer fato semelhante. Eles trabalham arduamente para conquistar aquilo que se chama de estilo: escolhem as palavras que usarão, excluem as que não usarão nunca, decidem-se pelos parágrafos curtos ou longos, pela aceitação ou não de exclamações ou reticências, pelo emprego de termos sofisticados ou de baixíssimo calão.

Os leitores habituam-se a esse estilo – que, no fundo, não deixa de ser um conjunto de truques. E, assim, eles e o escritor vão-se dando muito bem, até que um boquirroto – geralmente um crítico ou um resenhista – revela todas essas convicções que o escritor construiu com tanto esforço.

Aí, então, aquilo que era uma das razões de encantamento do leitor, às vezes passa a ser visto com suspeição, como se fosse um dos engodos de um mago.

Dalton Trevisan é, dos escritores brasileiros, talvez aquele que mais tenha sofrido com esse modo de denunciar um estilo como se fosse uma deficiência. Alguém disse – e alguém repetiu – que os livros de Dalton eram um só livro, e seus personagens também sempre os mesmos três ou quatro de sempre.

A verdade é que nos livros de Dalton não precisaria constar seu nome. É ler um parágrafo e saber: só ele pode ter escrito aquilo. Mas isso – que foi e é a sua principal qualidade – andou sendo apontado como pobreza. Resumindo: houve um tempo, curto, em que Dalton Trevisan foi quase acusado de ser daltoniano demais, assim como Machado de Assis é considerado às vezes excessivamente machadiano.

Os truques de Dalton foram apontados e ele, se soube disso, não se importou nem um pouco. Persistiu em usá-los e não parece que eles perderam seus poderes. Ele continua, livro a livro, praticamente um por ano, a construir uma obra notável.

Assim como Leopold Bloom anda ainda por Dublin, o vampiro de Dalton vaga há décadas por Curitiba. Quem quiser testar-lhe os dentes, é só levar o pescoço.

E por que escrevi isso? Digamos que para fazer, como leitor, uma pequena homenagem, um agrado, a um escritor admirável – antes que ele morra, ou eu. Salve, Dalton.