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Leitora compulsiva daquelas revistas que revelam tudo sobre a vida das estrelas da tevê, Maura descobriu uma noite, numa reportagem sobre beleza feminina, por que não vinha fazendo sucesso entre os rapazes, apesar do seu empenho em cativá-los.

Faltava-lhe a coragem que as cinco soberbas mulheres citadas na reportagem tinham tido: a de reconhecerem, no momento certo, que nelas havia ainda algo a ser melhorado. Todas tinham localizado esse ponto fraco – ou esse ponto menos forte – e haviam conseguido eliminá-lo: uma arrebitando o nariz, outra empinando os seios, a terceira diminuindo o queixo, a quarta engrossando as coxas, a quinta alongando a silhueta com seis meses de academia.

Maura anotou tudo mentalmente e jogou a revista longe. Pensou em subir para o quarto, embora fossem só sete e meia e não tivesse sono. A mãe logo a chamaria para jantar, e o aroma traiçoeiro do macarrão, chegando à sala, acendeu todas as luzes de alerta em seu cérebro: se desse a primeira garfada, comeria dois pratos e acrescentaria um pouco mais de peso aos seus setenta quilos – cinco acima do ideal.

Estava no terceiro degrau, a caminho da cama, quando a mãe, aflita, pediu:

“Maura! Corre aqui, Maura! Me ajuda!”

Maura chegou a tempo de espantar a gata Mimi, que, já em cima da mesa, estava pronta para dar o bote na travessa de macarrão com carne e molho. Sob o olhar rancoroso de Mimi, ela pegou com o polegar e o indicador meia dúzia de fios e os enfiou na boca, já esquecida da intenção de ir dormir sem jantar.

Depois de três pratos de macarronada e duas tigelinhas de sorvete, ela voltou para a sala, acomodou-se na poltrona e, apanhando de novo a revista, abriu-a num texto sobre os resultados que uma maquilagem audaciosa e uma roupa provocante podiam trazer. O pai chegou e, depois de se queixar do pratinho de macarronada que tinha sobrado para ele, viu um pouco de tevê e foi se deitar, acompanhado pela mãe.

Subindo para o quarto, Maura enfiou-se com obstinação numa minissaia que tinha aposentado três anos antes e gastou uma hora diante do espelho para passar no rosto uma ousada mistura de cremes tirados de potinhos que meses antes havia jurado nunca mais usar, pois a faziam parecer uma roda-gigante iluminada. Quando se achou bem diferente do que era, embora não se arriscasse a dizer que estava bonita, saiu. Eram oito e meia e, na rua quase deserta, começou a caminhar na direção do shopping, onde pretendia testar a eficácia de sua nova imagem.

Notou estar sendo seguida por um rapaz. Procurou andar mais lentamente, para incentivá-lo. Num trecho ainda mais deserto da rua, o rapaz finalmente a alcançou e ela ouviu sua voz de frangote:

“Quan… quan… to é?”

Confundida com uma profissional do sexo, ela não teve tempo de responder. Ao olhá-la de perto, o rapaz a reconheceu e saiu correndo: era vizinho dela e não tinha mais que catorze anos.