Quando ela pôs o pé no primeiro degrau da escada rolante, sentiu um toque no braço. Olhou para o lado, achando que o rapaz a tocara por ter perdido o equilíbrio. Logo percebeu que não. Ele, além de aumentar a pressão dos dedos sobre o seu braço, cumprimentou, com segurança:

“Oi, Samara.”

Ela olhou melhor para o rosto dele. Quem era, mesmo? Como ela podia esquecer o nome de alguém tão bonitão?

“Puxa, como você anda depressa”, o rapaz disse.

Ela franziu a testa. Não estava entendendo. Ele explicou:

“Estou correndo atrás de você três quarteirões.”

Ela continuou com a testa franzida. Tinham descido da escada rolante e estavam na área de embarque. Ele sorriu:

“Que canseira você me deu. Correr tanto, e com este calor.”

Quando ele disse calor, ela sentiu alívio. Aquele “r” a fez lembrar de quem era ele. Como ela demorara tanto para reconhecê-lo? Era Ricardo, o Carioca, namorado de uma garota que tinha trabalhado com ela, mas isso fazia quanto tempo? Três anos, quatro.

“Tudo bem, Ricardo?”, ela perguntou, reconciliada com a memória.

“Tudo, Samara. E você?”

“Ótima, obrigada.”

“Bom, eu sei que você ainda trabalha na Mundial. Vi quando você saiu. Eu estava do outro lado da rua e vim correndo atrás de você. Mas sempre um farol de pedestres fechava e atrapalhava.”

Ele parecia ansioso. O brilho dos seus olhos trouxe à lembrança dela outro apelido dele: Tigrão. Na Mundial, livraria onde às vezes ia buscar a namorada Abigail, colega de Samara, as outras vendedoras, quando queriam referir-se à atração que ele exercia sobre elas, o chamavam assim: ah, o Tigrão. E agora ali estava ele, diante dela, ofegante. E ela o imaginou correndo como um tigre no meio dos carros, para alcançá-la.

Ele fez uma pergunta óbvia: “Você deve estar curiosa. Eu já há algum tempo estava querendo falar com você. Desde que voltei do Rio.”

“Eu nem sabia que você estava de novo por aqui.”

“Faz três meses. Não está dando certo lá. Vim para cá e confesso que ando pensando em ir de novo morar no Rio. Pelo menos tenho meu pai e minha mãe lá. Mas, na hora em que te vi saindo da Mundial, eu imaginei: é o destino. Eu estava passando ali por acaso.”

“Destino?”

“Lembrei do tempo em que ia buscar a Abigail lá na Mundial e conversava com você. Sabe, eu sentia… eu sentia…”

Ele estava com todo o fulgor dos olhos tigrinos concentrado nela.

“… eu sentia uma coisa…”

Ela esperou que ele pronunciasse a palavra amor, mas ele disse apenas:

“… alguma coisa por você.”

Nesse momento ela sentiu a falsidade daqueles olhos:

“Ah, é? O que você quer?”

Ele olhou para os lados, para baixo, e sua voz era um murmúrio quando disse:

“Eu não entendo muito de livros, mas, se você indicasse meu nome lá na Mundial…”

Ela não se sentiu nada culpada quando mentiu:

“Aquilo ali está quase falindo. Não aguenta mais que um mês.”

Um trem estava chegando. Ela se despediu:

“Foi bom te ver.”

Receou que ele entrasse também no vagão, mas ele estava parado lá fora, com sua cara de tigre desmascarado. Abigail não tinha mentido ao dizer que ele era um mau-caráter.