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É  um homem generoso, o Pascoal. Pensa primeiro nas necessidades dos outros, em seguida nos problemas dos outros, e só depois, bem depois, se lembra de pensar nas próprias necessidades e problemas. E, aí, o que ele faz? Dá total prioridade aos problemas que compartilha com os outros.

Pascoal sempre foi assim, desde a infância. Quando estava com cinco ou seis anos, o pai já pressentia que o filho nunca seria nada importante – um craque de futebol, um astro do vôlei, um grande lutador de boxe -, mas a mãe, as tias e as avós estavam satisfeitíssimas: viviam dando beijocas nele e só o chamavam de anjinho.

Pascoalzinho merecia tanto o pessimismo do pai quanto o entusiasmo da mãe, das tias e das avós. Não acertava um chute na bola (o que excluía a possibilidade de ser um bom atacante) e também não acertava um chute na canela dos adversários (o que eliminava a chance de ser pelo menos um zagueiro de respeito).

A bola de vôlei, dada pelo pai com a esperança de que com as mãos ele pudesse fazer algo mais aproveitável, foi abandonada uma semana depois por Pascoalzinho, que a trocou por uma revista de histórias em quadrinhos.

O pai começou a pensar, então, que o filho poderia se tornar um atleta de outro tipo, como um lutador de boxe, por que não? Coisas assim acontecem. Mas essa hipótese também foi logo descartada. Um dia, Pascoalzinho chegou da rua com o olho esquerdo roxo. Tinha levado um soco de um garoto. O pai perguntou:

“Ele é maior do que você?”

“Não. É um baixinho.”

“Então amanhã você dá o troco, entendeu?”

No dia seguinte, o pai quis saber se o troco tinha sido dado.

“Não. Eu cheguei e  disse que ia dar um soco nele. Mas depois fiquei com pena.”

O pai balançou a cabeça, desanimado. Olhando bem para o filho, notou que o olho direito também estava roxo.

O tempo passou. Pascoalzinho virou Pascoal, depois dr. Pascoal e hoje os amigos de outrora, aposentados como ele, o tratam de bom e velho Pascoal.

Se fosse fazer um levantamento honesto do que ganhou e do que perdeu por ser como é, ele perceberia que está no prejuízo. Mas prefere esquecer as coisas ruins, as ingratidões, e jamais nega ajuda a quem a pede – e até a quem não a pede.

Ainda ontem, fazendo sua caminhada matinal, viu dois rapazes empurrando um carro, tentando fazê-lo pegar. Imediatamente começou a empurrar também. O carro só deu sinal de vida três quarteirões depois. Os rapazes foram embora e nem agradeceram, mas Pascoal não se zangou com eles. Nem quando o dono do carro surgiu correndo e ameaçou levá-lo à delegacia, como cúmplice do furto.