Talvez houvesse ali, bem diante do banco em que está sentado, uma flor ou quem sabe até uma porção delas, um canteiro. Foi numa tarde como esta, de sol ameno, quase triste. Vinte anos…
É normal que ele tenha se esquecido de alguns detalhes. Quando estava com Júlia só olhava para ela. Ele a absorvia, a inalava lentamente, como um vício, a incorporava aos seus pulmões, ao sangue, ao coração que gritava como duzentos manifestantes batendo tambores e exigindo pão.
Talvez houvesse uma flor, talvez houvesse umas flores quando ela, devagar demais para a ansiedade dele, surgiu na entrada do parque e veio caminhando como se chegar até onde ele estava fosse algo imprevisível como a soma de dois dados atirados sobre um pano verde.
Se houvesse alguma flor, e ele a colhesse, se houvesse algumas flores, e ele as colhesse e desse a ela, quando os passos pararam afinal diante dele, talvez ela não dissesse: “Precisamos ter uma conversa séria.”
Ela disse isso, depois de receber sem entusiasmo um beijo no rosto, esquivando-se dos outros tantos que ele pretendia lhe dar, e sentou-se ao lado dele, neste banco. Antes que ele pudesse perguntar-lhe qual seria o tema da conversa séria, ela suspirou – um suspiro que depois ele achou inadequado para uma ocasião como aquela – e disse: “Acabou.”
Ele se lembra das perguntas desvairadas, dos apelos que fez, das suas lágrimas, que tiveram uma resposta desgraçadamente inesquecível: “Não adianta. Acabou.”
Quando ele fez a pergunta óbvia, ela – com a agudeza de um punhal – respondeu: “É. Eu me apaixonei por outro.”
E, depois de pedir que ele jamais a procurasse, ela voltou pelo caminho que havia feito para vir. Ele não chegou a lhe ver o rosto, porque ela não olhou para trás.
Foi a última vez. Ele tentou saber dela e, depois de informações vagas e inúteis, desistiu. Mudou-se para um Estado longínquo. Nunca mais se ligou a ninguém. Nos últimos três ou quatro anos imaginou estar definitivamente livre de Júlia e de suas lembranças. Estar aqui agora, neste banco, lhe diz que não está.
A todo instante espera que ela surja, como naquela tarde, e caminhe para ele com um sorriso, embora não haja sequer uma flor para lhe dar. O gramado está morto. No meio da amarelidão há uma torneira. Ele não precisa abri-la para saber que está seca também. É só mais uma das metáforas desta tarde, como a noite que baixa preguiçosa sobre seus passos que começam a deixar o parque vagarosamente.