Roberto Carlos hoje não lhe diz quase mais nada. Ela se incomoda com isso. Quando ele e ela eram dois adolescentes, ah, como ela o amava. Amar? Amar era pouco. Era adoração o que ela sentia por ele. Seu quarto era o quarto de Roberto Carlos: cada centímetro de cada parede ocupado por fotos, pôsteres, capas de revista.

Tinha todos os discos, naturalmente, e naturalmente sabia cantar todas as músicas. Antes de Roberto Carlos se tornar rei, ela criou um fã-clube, naturalmente, e naturalmente foi aclamada sua primeira presidente, num tempo em que não haviam surgido ainda as presidentas.

Conhecia todas as manias dele e as aprovava. Frank Sinatra não era todo cheio de coisinhas e superstições? E quem era Frank Sinatra perto de Roberto Carlos? Quem eram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque? Quem era Paulo Sérgio? E, quem, pelo amor de Deus, era Antônio Marcos? Tinha vontade de estapear meninas que citavam esses nomes.

Ela se casou e, naturalmente, um pianista amigo tocou na igreja uma seleção de canções do rei.

Faz já algum tempo isso. Hoje ela tem duas filhas e duas netas. As filhas cantaram músicas de Roberto Carlos, mas as netas só sabem vagamente quem ele é.

Às vezes ela é tomada por uma onda de nostalgia, mas não chega a tocar os discos. Tem receio de se decepcionar muito. Um dia desses, imaginando como teria acontecido esse distanciamento, concluiu, ainda que pareça estranho, que Roberto Carlos está muito velho para ela. É um senhor da sua idade, cheio de manias chatas que ela não aprecia reconhecer em si própria.

Ela anda encantada com cantores jovens. As netas sabem que, como elas, a avó gosta de Luan Santana e Michel Teló. Roberto Carlos? Ela o acha… romântico demais, paradão. Ela hoje se interessa por músicas que possa dançar, ainda que sozinha.