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Foi há alguns anos. Num domingo, diante do macarrão com frango do almoço, seu Otaviano pôs para fora sua franqueza rude e perguntou à filha:

“E aí, Celinha, você vai ou não vai?”

Celinha sabia muito bem do que o pai estava falando, mas tentou fingir que não.

“Vai ou não vai o quê, pai?”

“Você está vendo, Lourdes?”, disse seu Otaviano, olhando para a mulher. “Você está vendo?”

“Vendo o quê?”, perguntou dona Lourdes, também fingindo não saber de nada.

Esse complô da mulher com a filha deixou seu Otaviano tão furioso que ele, engasgado, precisou desentalar um pedaço de frango da garganta antes de explodir:

“Eu vou ter um enfarte.”

O lance dramático funcionou. Dona Lourdes correu para encher de tapinhas as costas do marido, como se ele estivesse ainda engasgado, e Celinha, mesmo já tendo visto a cena muitas vezes, não riu, como pretendia no início. Achou melhor oferecer um copo de água ao pai.

Houve uma pausa. Depois, enquanto Celinha e a mãe se sentavam de novo, seu Otaviano, recuperando o controle da situação, resolveu voltar ao início do script.

“E aí, Celinha, você vai aceitar ou não vai?”

“Eu não sei, pai.”

“Mas como não sabe? Você teve uma semana para resolver. Uma semana!”

“É. Eu sei. Mas ainda não resolvi.”

“Pois então vai resolver já. E, quando eu digo já, eu quero dizer já. Agora. Entendeu?”

“Por que essa pressão em cima da menina?”, interveio dona Lourdes. “Calma, homem.”

“Calma? Menina? Ela tem 28 anos. 28! Não são 21, nem 25. São 28!”

“Mas parece que tem 18. Você mesmo não vive dizendo?”

“E isso é vantagem, por acaso? Ela acha que tem 18, e o que acontece? Só sai com aqueles garotinhos sem futuro.”

Dona Lourdes suspirou, desanimada.

“E você queria que ela fizesse o quê? Ela trabalha tanto! Será que não pode se divertir um pouco de vez em quando?”

“De vez em quando? Toda noite é de vez em quando? Está mais do que na hora de ela parar com essa folia. É por isso que…”

Celinha resolveu concluir a frase do pai:

“É por isso que o senhor decidiu inventar esse panaca do Ribeiro.”

“Esse panaca do Ribeiro?”

Seu Otaviano pôs a mão no peito, ameaçou de novo ter um enfarte.

“Você conhece o Ribeiro e sabe que ele não é um panaca. Se fosse, não seria meu sócio. Ele é um homem muito sério e muito bem-intencionado.”

“E muito velho, e muito feio”, completou Celinha.

“E muito rico”, rebateu seu Otaviano.

Celinha, acompanhada pelo olhar de aprovação da mãe, começou a dar a volta à mesa, pensando em pegar o caminho da escada e fugir para o quarto, na parte de cima da casa. Mas o pai impediu sua passagem.

“Celinha, você prometeu que ia dar uma resposta hoje.”

“E eu já dei a resposta, pai. Não vou querer conversar com aquele panaca. Nunca.”

“Ah, vai, sim. Ele vem aqui às sete e eu quero que você esteja prontinha quando ele chegar.”

“Pai, você tem consciência do que está fazendo? Pai, nós não estamos na Idade Média.”

A discussão continuou até pai e filha chegarem a um acordo. Como a visita de Ribeiro já estava marcada, ela se comprometia a não ser agressiva com ele. Seu Otaviano acreditava que, se o sócio tivesse uma chance, acabaria dobrando Celinha.

Ribeiro era mais agradável do que parecia e Celinha nem precisou se esforçar muito para reconhecer isso. Já era alguma coisa. Saíram algumas vezes depois dessa noite e seu Otaviano ficou feliz até saber, dois meses depois, que a filha estava grávida. O enfarte que ameaçou ter apressou uma resolução que Ribeiro já havia tomado. O casamento se realizou com a urgência necessária e quem folheia hoje o álbum diz que nunca existiu noiva mais risonha que Celinha.