Amor

Oi, doidinha

Por Raul Drewnick

21/04/2017, 09h01

   

Um recado bobocamente romântico

pixabay

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Doidinha, não sei o que você viu em mim.

Vou até o espelho, olho, olho, e não vejo nada que possa merecer uma segunda espiada.

Mesmo assim, deixo que passe um minuto, reúno toda a autocondescendência, volto ao espelho e… vejo o que já havia visto: um rosto rabiscado pela vida e pelo tempo, um sorriso  que, quando se abre, se abre de má vontade e, nos olhos, sempre aquela disposição de captar toda a melancolia possível e conservá-la.

Não sei, doidinha, o que você pode ter visto em mim. Há de ser algo interior, que só a alma seja capaz de apreender. Só pode ser isso. Um texto que você leu? Um poema na internet? Ah, não confie em textos, desconfie de poemas. Dos meus, então, não confie em nenhum, desconfie de todos. Tentando encontrar um caminho para a literatura, eu aprendi tantos truques, tantos, que já não posso garantir a pureza da mais inocente de minhas vogais.

E o que eu vi em você, doidinha? Ah,  não me pergunte. Eu sou um jarro velho e furado e, mesmo querendo muito, me sinto incapaz de reter, por mais de um momento, seja o que for vertido em mim, mesmo que em mim você verta esse mel, esse ouro, isso que eu, antigo, ainda me atrevo a chamar de néctar, por não ter aprendido palavra mais simples e melhor, por não me haver preparado para algo ainda mais doce que a ambrosia.

Doidinha, não vá ao dicionário, não faça isso, é bobagem. Há coisas mais agradáveis para fazer num feriado. Você nunca encontrará uma ocasião para usar essa ambrosia – nem em palavras cruzadas.

Guarde suas mãos para fazê-las correr pelos seus cabelos e ajeitá-los, ou desajeitá-los. Guarde-as para, com senso de justiça, passar ora uma, ora a outra pelo seu queixo, para deixá-lo orgulhosamente  empinado como eu o vi naquela primeira vez.

Doidinha, eu sou um velhote lamentável, metido a poeta, que sabe citar, uma a uma, todas as maravilhas do mundo, aquelas que eram sete e depois se transformaram em dez. Você é a décima primeira, você é a primeira de todas, e não se importe se lhe disserem que a opinião é de alguém tão ridiculamente romântico que daqui a pouco toda a cidade estará rindo de mim.

Doidinha, não ria de mim.

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