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Digo-te boa noite e gostaria de não dizer mais nada – nem agora, nem nunca. Digo-te boa noite, boa noite, e gostaria de ficar dizendo boa noite pela madrugada adentro, pelo dia afora. Continuar dizendo boa noite, boa noite, boa noite, como se essas fossem as únicas palavras que eu tivesse aprendido um dia e descobrisse que as aprendi só para dizê-las hoje a ti.

Gostaria que meus lábios, como se fossem uma engenhoca eletrônica, travassem nesse boa-noite e ficassem a repeti-lo dias e dias, meses e meses, e anos, muitos, muitos. Que o fenômeno fosse tão assombroso e repercutisse tanto que viessem ver-me especialistas de várias áreas, linguistas, pesquisadores paranormais, fisiólogos, exorcistas.

Que multidões se reunissem e que um empresário astuto resolvesse cobrar ingressos e que a procura tumultuada e febril obrigasse a venda a ser feita pela internet. Que o número de acessos na rede ultrapassasse três milhões em seis meses e que os advogados do meu empresário acionassem na Justiça qualquer pessoa que em qualquer parte do planeta, e em qualquer idioma, dissesse boa noite. Que aparecessem impostores tentando impingir seus bons-dias e boas-tardes como se fossem iguais ao meu boa-noite. E que todos fossem humilhados e condenados à execração.

Que repórteres de todo o mundo tentassem me entrevistar e que eu, restrito à minha doce tarefa, só pudesse dizer-lhes boa noite, boa noite, boa noite.

Que lançassem sobre mim a suspeita de ser robô e me examinassem à procura de parafusos e placas de metal. Que, quando ninguém mais imaginasse ser possível desvendar o mistério, eu certa madrugada repentinamente gritasse as duas palavras e acrescentasse a elas um nome que depois muitas mulheres fascinadas por um tardio romantismo diriam ser o delas, camuflado.

E que eu tivesse a ventura de dizer e continuar dizendo essas três palavras até o último dos meus dias: boa noite, ********.