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Débora parou o carrinho de compras ao lado do carro. Estava começando a enfiar os produtos no porta-malas quando ouviu o miado. Era um gato pequeno, um filhote. Tigrado, como ela gostava. Ele a observou esvaziar o carrinho e fechar o porta-malas. Só então miou de novo, como se tivesse aprovado toda a operação. Débora fez-lhe um agradinho e recebeu em troca um rom-rom. Entrou no carro e bateu a porta:

“Tchau, gatinho.”

Não tinha percorrido dez metros quando, ao olhar pelo retrovisor, viu que o gato tentava acompanhar o carro. Ela brecou:

“O que foi, gatinho?”

Ela havia aberto um pacote de biscoitos. Pegou um deles e o atirou pela janela. O gato não se interessou.

“O que você quer?”, ela perguntou, aflita. “Entrar?”

Assim que ela abriu a porta, o gato pulou para dentro e, como se andar de carro fosse rotineiro para ele, acomodou-se no banco de passageiro.

“Bom, parece que eu tenho um gato”, Débora disse em voz alta.

Ela morava sozinha e, depois do entusiasmo inicial, se pôs a pensar nos transtornos que o gato lhe traria. Felizmente estava em férias e teria algum tempo para ver se daria certo. Desde o instante em que entrou no apartamento, o gato mostrou que estava disposto a ficar. Comeu umas bolachinhas e, afofando o sofá, dormiu.

Na manhã seguinte, Débora não entendia como podia ter vivido tanto tempo sem ele. Mas já estava certa de que não suportaria viver sem ele um dia sequer.

Uma semana depois de adotá-lo, ela voltou ao supermercado. Ao estacionar, viu, numa faixa pendurada, um apelo a todos os que pudessem dar informações sobre um gato desaparecido.

Débora gelou. Abriu a bolsa, pegou o bloquinho e anotou o celular. A partir daí, perdeu a noção de tudo. Não comprou nada no supermercado. Voltou para o apartamento e abraçou o gato com tanto ímpeto que receou tê-lo sufocado.

Ela estava diante de um drama de consciência. A faixa no supermercado falava de uma menina doente. Talvez fosse mentira, mas… Ela sentiu que, se hesitasse um pouco mais, mandaria ao diabo todos os escrúpulos e ficaria com o gato. Pegou o número do celular. Ligou. Uma voz adolescente atendeu. Débora pensou em desligar. Se queimasse por toda a eternidade no inferno, certamente não seria a única.

“Alô, alô”, repetiu a voz.

“Quem fala?”, perguntou Débora, ainda vacilante.

“Évelin. Quem é?”

“Aqui é Débora. Você não me conhece, Évelin. Estou ligando porque… É sobre um gato.”

“Ah, graças a Deus. Você achou ele?”

“Achei.”

“Ah, graças a Deus. Ele está bem?”

“Está, sim.”

“Graças a Deus”, disse Évelin pela terceira vez, irritando Débora. Por que Deus estava do lado da garota, provavelmente uma boboca, e não do lado dela?

“Qual é o nome dele, Évelin?”

“Branquelo.”

“Como? Não entendi.”

“É Branquelo.”

“Mas Branquelo por quê?”

“Pela cor. Ele não parece uma bolinha de algodão?”

“Não. Ele é tigrado.”

“Tigrado?”

“É.”

Débora puxou o gato para o colo e começou a pular de alegria. Foi com um pouco de vingança na voz que ela disse:

“Graças a Deus, graças a Deus não é o seu gato, Évelin. É o meu, o meu!”