Cláudia já era meio do contra, quando criança. Não chegou a ser uma desmancha-prazeres, mas quase. No colégio, na rua, em casa, era a voz discordante. Não era birrenta, não batia o pé, não tentava se impor, mas via as coisas sempre do seu jeito. Pau era pedra e pedra era pau.

Nunca teve um amigo imaginário, um gato preferido, um cachorro de estimação. Tudo isso – o amigo, o gato, o cachorro – eram coisas do universo da irmã, dois anos mais velha. Também as bonecas não faziam a cabeça de Cláudia.

Talvez alguém, a esta altura, possa imaginar que ela era daquelas garotas que costumam ter mais afinidades com os meninos. Não, ela não chutava bola, não empinava papagaio, não lutava espada, não atirava pedra nos bem-te-vis, não jurava que ia casar com a Xuxa.

Gostava de ler, isso sim. Leituras que deixavam a família com os cabelos em pé: biografias – principalmente as dos mais abomináveis tiranos -, novelas policiais, histórias de terror e horror e romancistas russos. Estes, os romancistas russos, eram os que causavam maior preocupação. A mãe, no dia em que a pegou lendo Dostoiévski, quase caiu de costas.

“Claudinha, este aqui não é o degenerado que escreveu aquele livro do rapaz que saía matando velhas com uma machadinha?”

“É, mãe. Você leu? É este. ‘Crime e castigo.’ É uma história bem triste.”

“Triste, só?”

“É. E bonita.”

Nesse dia, a mãe ligou para a prima psicóloga, que a tranquilizou:

“Calma. Eu mesma, quando meninota, li uma porção de livros esquisitos. Um deles era esse ‘Crime e castigo’. Quer saber? A história da machadinha não mexeu nada comigo. Eu me impressionei mais com o punhal do caçador da Branca de Neve.”

Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos, e se eu puxo o assunto agora é porque esta semana, numa festa familiar, a irmã de Cláudia estava recordando essa fase das leituras malucas.

“Malucas?!”, espantou-se Cláudia.”Você é que só lia baboseiras e falava só de príncipes encantados.”

“E você, Claudinha, falava de cavalos, lembra?”

“Cavalos?”

“É. Sempre que eu dizia a você como era bonito o príncipe, você perguntava: e o cavalo dele? Uma vez eu disse que o cavalo era horroroso e você me deu um beliscão que até hoje me dói.”

Enquanto a irmã de Cláudia tentava reencontrar a marca do beliscão, a mãe balançou a cabeça: era culpa do escritor russo, aquele da machadinha.