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Há catorze dias, narrei o embarque e, na semana passada, a partida do meu ônibus favorito, o Vila Morais, na estação Saúde. A história parou no momento em que uma mulher de microssaia pergunta ao personagem chamado Professor se a Rua São Fernando está perto.

“São Fernando?”, antecipa-se um garoto. “Acho que não é por aqui.”

O Professor, mostrando que merece ser chamado assim, informa:

“Assim que passar esta avenida, agora, já é a São Fernando.”

O rapaz diz:

“Não é, não. É a Francisco Tapajós.”

A mulher fica indecisa. O Professor olha para o garoto com condescendência e explica:

“Moro no bairro faz quarenta anos e sei o que estou falando. Agora a rua se chama Francisco Tapajós, mas antes era São Fernando. Qual é o número?”

“Vou ver aqui. É onde tem uma padaria grande. Estou indo atrás de um emprego. Tenho uma amiga que trabalha de caixa lá e estão precisando de alguém para revezar com ela.”

“Ah, então é no segundo ponto, depois que o ônibus atravessar a avenida. Não tem erro.”

A mulher desce no ponto indicado, acompanhada por suspiros causados ainda pela microssaia. Outra se aproxima e pergunta ao Professor se ele sabe onde é o Júlio Ribeiro.

“O colégio? Claro. Dei aula lá, faz uns anos.”

“Então o senhor deve conhecer a professora Clarissa.”

“Conheço, sim. É a diretora, agora. Olhe, pode descer no próximo. E dê, por favor, um abraço na Clarissa. Diga que foi o professor Atílio.”

Aproveitando a referência a Júlio Ribeiro, o Professor informa, dirigindo-se aos passageiros próximos, que ele foi um filólogo.

“Filósofo?”, pergunta alguém.

“Não. Filólogo mesmo”, confirma o Professor, e diz que Júlio Ribeiro escreveu um livro que causou muita discussão, por ser considerado pornográfico: A carne.

Enquanto a mulher desce, outra, com duas crianças, pergunta ao motorista se ele vai até o Zoológico. Ele explica que o ônibus é outro, e as crianças começam a resmungar.

Perto do ponto final, o ônibus já está quase vazio. O Professor, que parece estar sempre disposto a conversar, anuncia, como se fosse um guia de turismo:

“Esta é a famosa Rua dos Três Tombos.”

O homem ao lado diz simplesmente:

“É.”

“Pouca gente conhece o nome verdadeiro.”

“É verdade.  Até uns que moram aqui não sabem que ela se chama Dom Vilares.”

Um pouco decepcionado, por não ter ensinado coisa nenhuma ao homem, é a vez de o Professor concordar secamente:

“É.”

“E tem gente que não sabe por que se chama Rua dos Três Tombos.”

“Isso é quem nunca foi até lá embaixo, nem de ônibus nem de carro. Cada tombo é um frio na barriga, não é? Vupt, vupt, vupt. Um dia eu vi um menino de bicicleta, logo no primeiro pulo, voar que nem o ET no filme, o senhor assistiu?”

“Sempre que passa de novo na tevê, eu vejo.”

“Deviam oficializar o nome, o senhor não acha? Se é assim que o povo chama, por que ficam insistindo no outro nome?”

“É que esse Dom Vilares deve ter sido um figurão.”

O Professor vê que o homem está esperando uma informação dele, mas sua memória falha:

“Parece que foi um bispo.”

“Leva jeito de ser.”

“Ou vai ver que foi ajudante de Dom Pedro, tio”, interrompe um garoto, sem que o Professor perceba se com seriedade ou com espírito jocoso.

Enquanto o Professor decide se fica nervoso ou não, vou encerrando nossa viagem de três etapas. Foi um prazer viajar com vocês. Se um dia pegarem o 4734, talvez possamos bater um papo. Futebol? É um bom assunto. Melhor ainda se vocês forem corintianos.