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Ao se tornar cinquentão, o marido de Gládis começou a demonstrar pela teoria e pela prática do sexo um interesse incomum.

Na primeira dessas fases, quando revistas com fotos de mulheres começaram a aparecer na sala, na cozinha e no banheiro – no banheiro! -, ela se aguentou o máximo que pôde. Até que um dia, ultrapassada a fronteira da tolerância, sem saber que estava errando o alvo, acuou o filho Betinho num canto e o interpelou sobre aquela sem-vergonhice esparrramada por toda parte.

Betinho protestou com a veemência dos seus dezessete anos ultrajados:

“Não vem, não, mãe. Minhas revistas eu não deixo espalhadas por aí. Estas aqui eu até pego às vezes e dou uma espiada, mas não são minhas, não.”

Foi como se um raio caísse na frente de Gládis. Ficou tão zonza que meia hora depois Betinho já estava longe, na rua, e ela continuava parada no mesmo lugar, balbuciando:

“Mas, se não são suas, Betinho… Mas, se não são suas, Betinho…”

Quando o marido chegou, à noite, ela perguntou se aquelas indecências eram dele, e a resposta que recebeu foi outro raio:

“Você juntou todas? Obrigado. Eu não lembrava onde tinha deixado esta aqui. Você viu só que beleza esta moreninha?”

Em poucos segundos, Gládis passou do espanto à indignação:

“Agora eu sei por que você anda assim… assim… ta…”

Não teve coragem de pronunciar a palavra. E, enquanto imaginava outra forma de dizer que estava espantada, o marido se antecipou:

“Você está zangada?”

A conversa acabou aí. Depois de jantarem, Gládis disse, embora fossem só sete e meia, que ia se deitar. Na cama, virando-se de um lado para outro, afofando e reafofando o travesseiro, ela foi acompanhando a passagem do tempo no relógio do criado-mudo: oito horas, oito e meia, nove, nove e meia.

Às onze horas, o filho chegou. Gládis o ouviu perguntar por ela. Às onze e meia, a tevê foi desligada na sala e, quinze minutos mais tarde, o marido estava se deitando ao lado dela. Gládis fingiu estar dormindo quando ele encostou a cabeça no ombro dela e quando cochichou alguma coisa. Mas, no momento em que ele procurou a mão dela e a apertou, ela explodiu:

“Por que você não vai procurar aquelas… aquelas mulheres das revistas?”