Tem trinta anos e não sabe definir o que é o amor. Quando tinha dezoito, as mulheres passavam por suas mãos sem que ele tivesse tempo sequer de guardar seus nomes. Eram Zoés, Lauras, Lucilas, Marias da Graça, de Lourdes e da Conceição. Garotas que ele, se não levasse para a cama na primeira ou na segunda vez, não fazia questão de reencontrar. Eram ligações que, com passagens ou não pelo motel, duravam uma quinzena, se tanto. Amor era uma palavra que não se entrosava com seu dia a dia. Não conhecia as sutilezas de amar e ser amado. Eram só contatos de carne e de pele.

Depois veio um período em que, saindo do círculo das garotas, sentiu que lhe faltava algo para se relacionar com as mulheres de sua idade. Todas pareciam muito mais maduras que ele e a elas não encantava a rapidez com que, depois de trinta ou quarenta palavras, ele lhes rodeava a cintura e esforçava-se para conduzi-las à mais próxima das camas.

Uma delas perguntou de onde ele tinha saído, outra quis saber, com evidente malícia, se ele era marinheiro e outra lhe afastou rapidamente a mão, quando ele a encostou na cintura dela, depois de terem trocado um muito-prazer e um boa-noite. Essa quis saber se ele já tinha ouvido falar de amor, e ele ficou com a impressão de que a palavra amor resumia um conjunto de normas pelas quais um homem poderia levar uma mulher a um motel sem ser considerado um selvagem.

Precisou de muito tempo para descobrir que o amor não era essa etiqueta, essa espécie de licença para que se abrissem zíperes e botões. Sabe há uma semana, ou imagina saber, que o amor é um sentimento. Esse conhecimento coincide com a contratação de uma vendedora pela imobiliária em que ele trabalha. Ele fica no escritório central e, como ela sempre está fora, levando clientes para visitar casas e apartamentos, os dois se veem pouco.

Nesses momentos em que se veem, o rosto dele assume uma inexpressão notável. Dizem que Michelangelo, ao terminar a escultura de Davi, ficou tão impressionado que ordenou: “Fala!” Se alguém observasse o êxtase com que a vendedora novata é olhada, talvez dissesse a ele: “Baba!”

Há uma semana ele se sente leve, tolo, abobalhado. Não é uma sensação ruim. Ele não quer que ela se atenue ou suma. Quando olha para Natália, a vendedora, tenta o quase impossível exercício de fazer com que os olhos não se aventurem abaixo do colar que ela sempre usa. Natália, que despertou nele algo que talvez seja o amor, não deve ter seios, cintura, pernas ou nádegas. Ele pensa que esse é um ponto essencial no projeto.