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Nos dias em que vou pegar o ônibus Vila Morais (4734), na estação Saúde, vejo, com alegre alívio, que ainda sou considerado alguém capaz de comprar alguma coisa. Os camelôs tentam me seduzir com cachorrinhos de pelúcia que latem delicadamente, sanduíches, frutas, doces, balas, maçãs do amor, além de assinaturas de revistas, estas com direito àquilo que, sabe-se lá por qual calamidade linguística, se chama hoje degustar e não, como antigamente, folhear ou dar uma espiadinha.

“Pode ver, senhor, à vontade. Nós temos planos especiais, promoções. Publicações para toda a família, homens, mulheres, crianças.”

Se chove, surgem de repente em toda parte guarda-chuvas e capas de plástico, como se alguém tivesse gritado um milagroso “abre-te, sésamo”.

Passa às vezes um homem proclamando que Jesus é a única salvação e, naturalmente, outro perguntando se o Plaza Sul está no itinerário.

O fiscal da linha anota seus números na prancheta meticulosamente e depois coloca a caneta na orelha, com uma perícia de dar inveja. Um garoto vem de skate na contramão, tirando finas dos carros, e as mulheres na fila balançam a cabeça:

“Ah, se fosse meu filho. Puxava a orelha dele.”

“E adiantava? A molecada de hoje não respeita mais nada.”

Um dia, o ônibus custou a vir e um senhor, desses que ainda sabem conjugar um verbo, fez um comentário, brincando com o nome da linha:

“Ah, Vila Morais, por que demorais tanto?”

Quando o ônibus chega, é sempre um empurra-empurra e um vozerio. Alguns espertinhos da fila dos que vão em pé se fingem de desentendidos e tentam entrar primeiro, provocando revolta:

“Ô, meu, o que é isso? Fila é pra respeitar, né?”

“Eu cheguei antes de você, pode perguntar pra este senhor aqui.”

“Olha, eu não tenho nada com isso. É assunto de vocês dois.”

Sempre há uma senhora, com um pacote enorme, que olha para o tumulto, diz que não vai entrar nem morta mas naturalmente acaba entrando e, assim que lhe dão lugar, se põe a falar da neta, que será a melhor bailarina do mundo.

Quando parece que ninguém mais vai caber, entram mais dois passageiros, depois mais três, e o motorista vai comandando:

“Um passinho à frente, pessoal, por favor, senão não vai dar pra fechar a porta, e com ela aberta eu não saio.”

“Um passinho à frente de que jeito? Nós estamos entalados.”

Os ônibus de São Paulo são heroicos. O Vila Morais é desse time. Nunca me decepcionou. Tenho muitas histórias sobre ele. Esta fica por aqui, quando ele vira à direita e entra na Avenida Jabaquara.  Prometo outras.