Menina que passeia com seu cãozinho pelo parque, deixe que eu lhe diga duas palavrinhas. Não sei o que você pensa da poesia que anda aí pelos livros e pela internet, mas ouso imaginar que, assim como acontece comigo, ela não a emocione muito.

Os críticos dizem que ela deve ser desse jeito mesmo, em nome dos novos tempos, mas eu, que procurei fazê-la como eles querem, confesso que não consigo. Todas as vezes que tentei, tentei pensando em alguém exatamente como você, uma menina bonita caminhando com o cachorrinho num parque. E todas as vezes, no fim, me pareceu que havia escrito para alguém que não tinha semelhança nenhuma com você.

Quero lhe dizer hoje, agora, aqui, como se fosse um manifesto, que, ensinem o que ensinarem os críticos, voltarei a seguir somente o coração, a sua música e as suas rimas, por mais pobres que sejam. E, como quando tinha dezoito anos, escreverei poemas que possam fazer brilhar os olhos de meninas como você, ainda que seja um brilho fugaz provocado por palavras frágeis, que o vento não terá trabalho nenhum para dispersar.

Não pensarei mais em antologias, em prêmios, me fixarei em você e na graça com que você faz passear seu irrequieto cachorrinho esta tarde. Escreverei para você e para ele, só para os dois. Não pedirei nada em troca, nem mesmo um beijo rápido em meu rosto cansado.

Como recompensa aceito, se você me permitir, brincar de corrida com seu cachorro,  fazer-lhe um agradinho, quem sabe até beijá-lo – ou esfregar meu nariz no dele.

Não temo mais o ridículo, agora que me reconciliei com a minha poesia, e se houver por aí, no parque, algum crítico desses que falam em estrutura, em menos forma e mais conteúdo, gostaria que ele fosse chamado para ver como você e seu cachorrinho me ouvem com gosto e como os seus olhos, e os dele, me dizem que ao menos para vocês eu sou um poeta.

Algumas flores do parque às vezes olham para mim como se reconhecessem isso também, mas posso eu usá-las como testemunho diante de um desses especialistas que proibiram a emoção na poesia? Eles acreditariam que frequentemente falo às árvores, e que elas me respondem com gestos nos quais cada dia é mais vigoroso o verde? Eles não me chamariam de impostor se eu dissesse que esta flor que dou a você agora me foi oferecida por esta árvore sob cuja sombra estamos você, seu cachorrinho e eu?