Eu poderia me apaixonar por uma mulher que fosse suave e doce, e que exagerasse sua timidez, para não correr o risco de parecer presunçosa.
Eu poderia me apaixonar por uma mulher que gostasse de animais, principalmente de gatos, e conservasse ainda alguns daqueles deliciosamente bobocas ideais da adolescência.
Eu poderia me apaixonar por uma mulher que tivesse uma voz que acordasse em mim instintos de arte e me levasse a metáforas de beleza.
Eu poderia me apaixonar por uma mulher que sorrisse com frequência e que, quando chorasse, chorasse lágrimas que fossem irmãs das que choro.
Eu poderia me apaixonar por uma mulher que de vez em quando falasse em infortúnios, mas em seguida me pegasse a mão e me dissesse que, estando nós dois com os dedos entrelaçados, chamar a vida de bela seria a mais plena de todas as verdades.
Eu poderia me apaixonar por uma mulher que me amasse sem saber explicar por quê, porque, se ela explicasse, eu, que tão bem me conheço, duvidaria de suas razões.
Eu poderia amar uma mulher que acreditasse nos poemas que eu escrevesse para ela e visse neles não só as palavras, as rimas, as estrofes, mas a chama que ela houvesse acendido em cada consoante e em cada vogal.
Eu poderia amar uma mulher que me permitisse respirar seu nome em cada segundo e desse ao meu estouvado coração licença para repeti-lo em suas batidas clamorosas.
Eu poderia amar uma mulher que, sendo a mais preciosa, não duvidasse quando eu lhe dissesse que ela nasceu para ser assim, a mais preciosa.
Eu poderia amar uma mulher que estivesse em meus olhos quando eu olhasse para as rosas.
Eu poderia amar uma mulher que regasse com seu afeto minha poesia e a tornasse tão simples que qualquer menino ou menina, lendo-a no colégio, sorrissem para ela como se fosse para um beija-flor.
Eu poderia amar uma mulher que não risse ao ler este texto, uma mulher que considerasse meu romantismo um defeito menor e me absolvesse por trazer os bolsos sempre cheios de estrelas para lhe ofertar.