Ia-se à escola, no meu tempo, para aprender a ler e escrever e a fazer contas. Era o que nos diziam os antigos (aqui incluídos pais, mães, avôs e avós) e, se perguntávamos qual era a utilidade de saber ler, nos explicavam que, sem o dom da leitura, poderíamos não só não pegar o ônibus certo como pegar o ônibus errado.

Se alegávamos que sempre poderíamos perguntar a alguém se tal ou qual era o ônibus que nos servia, o horror se desenhava no rosto dos adultos: “Aí vão descobrir que você é um analfabeto.”

A palavra analfabeto, pelo modo como a pronunciavam, parecia exprimir a pior coisa que um homem podia ser. Tinha uma carga de vergonha, de desprezo, de abominação. Ela era dita em voz baixa, principalmente quando se referia a algum parente, como se assim se poupasse, de alguma forma, o infeliz.

Era desse modo que nos convenciam de que a leitura era essencial. Tudo bem. Mas para que servia somar, subtrair, multiplicar e dividir? A essa pergunta respondiam com outra: não sabíamos da existência de ladrões? Conhecíamos alguns, naturalmente, das histórias que liam para nós, mas achávamos que ladrões existiam só na ficção.

Então nos diziam que havia ladrões na vida real, muito piores, e contavam histórias de milionários que, habituados a comer com talheres de prata e ouro, se viram repentinamente sem uma fatia de pão, porque, desconhecendo a arte dos números, eram furtados descaradamente por empregados ladinos e, quando iam ver, cadê aquilo tudo que tinham acumulado durante gerações?

Como nem em minha família nem nas outras do meu bairro havia notícia de um parente sequer que tivesse sido rico ou coisa parecida, aprender a contar não parecia tão importante. Mas passar pelo vexame de ser flagrado como analfabeto ao perguntar se tal ônibus era mesmo o ônibus tal me dava arrepios.

Anos depois, quando eu já sabia ler – embora ainda hoje não possa me gabar de habilidades aritméticas -, li que certa vez Ruy Barbosa, tido como o mais sábio de todos os brasileiros, perguntara um dia a uma senhora para onde ia determinado bonde, e recebeu dela um pedido de desculpa: “Eu ia justamente perguntar ao senhor. Eu também sou analfabeta.” E Ruy Barbosa precisou justificar-se, não sei se com sucesso, dizendo ser míope.

Mencionar aqui Ruy Barbosa me fez lembrar de uma crônica na qual Rubem Braga fala da satisfação que teve certa manhã, ou tarde, já não lembro, quando ele e os colegas, no portão do colégio, foram avisados de que não haveria aula.

“Mas por quê?”, perguntaram.

“Porque morreu hoje o grande brasileiro Ruy Barbosa.”

Os meninos não sabiam quem era Ruy Barbosa, mas, pensando no futebolzinho que iam poder jogar, saíram correndo e gritando:

“Viva Ruy Barbosa! Viva Ruy Barbosa!”