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Jussara é obcecada com os sonhos – os próprios e os alheios. Quando acorda, de madrugada ou de manhã, logo se senta na cama e procura lembrar se sonhou e qual foi o sonho. No criado-mudo, à sua disposição, está sempre um bloquinho com um lápis. Se o sonho vale a pena, ela o anota, com medo de perdê-lo no meio de uma nova soneca.

Tem três livros sobre interpretação de sonhos. O primeiro, que herdou da mãe, está sem a capa e lhe faltam várias páginas, mas ainda é útil, embora trate de situações hoje estranhas: um capítulo explica o significado de sonhar com Rock Hudson, outro diz o que deve pensar quem sonhe estar andando de bonde e há um que dá conselhos aos que, dormindo, se flagrem chicoteando o leão da Metro ou caindo na piscina ao mesmo tempo com Esther Williams e com o cavalo do Zorro.

O segundo livrinho traz na capa o ano de 1982 e, logo abaixo do título, o esclarecimento de que é “uma obra dedicada ao estudo científico dos sonhos”. Jussara o comprou num sebo e nunca entendeu como se podia vender por um preço tão baixo um livro tão precioso. Esse já inclui hipóteses mais recentes, dando segura orientação a quem, sem nunca ter dirigido um fusquinha, pega no sono e de repente se vê pilotando um avião a jato. Ou a quem sonha estar contracenando com Tarcísio Meira ou Regina Duarte, numa novela, ou estar sendo perseguido por um vilão com pernas de polvo e a cara do Maradona.

O terceiro livro foi escrito pela própria Jussara – 80 páginas batidas no micro – e está à espera de um editor. Nele, ela expõe toda sua experiência: desde os 16 – está agora com 34 -, ela registra tudo o que sonha e, levada pelo espírito investigativo, quer sempre saber tudo o que sonham os outros. Ontem, por exemplo, ela explicou à irmã Jurema o que significa sonhar com um homem ruivo, de olhos azuis e bigodinho. E, hoje de manhã, interrogou o marido:

“Você teve uma noite agitada, Roberto. Com o que você sonhou?”

Roberto, com dificuldade, começou a se lembrar: estava nadando, numa praia muito bonita.

“Sozinho?”

“Não. Eu estava… estava com uma morena alta.”

” Ela usava batom escarlate?”

“Como você adivinhou?”

“Não era eu, era?”

“Não, não era”, admitiu Roberto.

“Lógico que não”, disse Jussara, ríspida. “Sabe quem era? Era a minha irmã. A Jurema, aquela assanhada. Foi ou não foi?”

Enquanto Roberto, ainda reconstituindo o sonho, tentava recordar se nele havia estado mesmo a bela cunhada, Jussara exprimiu sua indignação com esta frase:

“Você tem fixação nela, pensa que eu não noto?”

Disse isso e olhou com raiva para aquele ruivo de olhos azuis e bigodinho. Mas nem o olhar nem a raiva duraram muito. Logo ela suspirou, arrependida. O amor era mesmo esquisito. Como tinha se apaixonado por aquele homem? Nem muito bonito ele era.