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Elaine andava sonhando com aquele homem toda noite. Não era alguém que ela conhecesse. Não era também um astro de cinema ou tevê. Ela bem que gostaria que fosse, porque o homem que lhe aparecia não podia ser considerado bonito. Pela insistência dele, ela às vezes tentava achá-lo um pouquinho melhor do que era. Se ele não tivesse aquele bigodinho esquisito, quem sabe…

Ela dizia às amigas que não tinha sorte com namorados. O último tinha sido um maluco que, quando saía com ela, era como se não houvesse  saído. Andava com uma câmera, filmando tudo: a rua, as pessoas, os prédios, os carros. Nunca a havia julgado digna de ser filmada, a não ser um dia, como coadjuvante de um gato.

As amigas diziam a Elaine que logo ela conheceria o homem dos seus sonhos. Ela sorria. Preferia um que fosse bem melhor que o dos sonhos. Um dia deram-lhe um folheto de cartomante: Madame Petruschka. Era naquela rua, número 208. Ela estava exatamente diante do 208. Parou e ficou olhando. Era um sobradinho. Numa janela, aberta, um gato dormia ao sol. De repente apareceu uma mulher que se pôs a afagar o gato. Elaine sorriu. A mulher perguntou:

“Veio me consultar?”

Elaine pensou: por que não? Um minuto depois estava dentro do sobrado. Madame Petruschka, que tinha colocado um turbante e fechado a cortina, começou a manusear as cartas:

“Vejo, aqui, que você é uma pessoa muito sensível que nem sempre é compreendida pelos outros. Vejo também que você tem algumas dúvidas sobre o seu futuro, sobre o que você vai fazer na vida profissional e também…”

“Sobre o amor as cartas dizem alguma coisa?”

“Sobre o amor? Humm, humm. Eu vejo que existe um homem muito apaixonado por você, que procura chamar sua atenção, mas…”

“Mas?”

“Mas vejo que talvez não dê certo, porque… porque…”

“Por quê?”

“Porque…”

Nesse instante, a porta foi aberta com violência. Elaine e Madame Petruschka viram entrar um rapaz com um estilete na mão.

“O dinheiro, o dinheiro”, ele exigiu.

Elaine tremeu, mas a cartomante não se impressionou. Gritou: “Leão! Leão!” Instantaneamente, um cão enorme veio da cozinha e lançou-se sobre o invasor, que, apavorado, escapou pela porta, que tinha deixado entreaberta.

Madame Petruschka pegou as mãos de Elaine:

“Fique tranquila, querida. Ele não volta. É o terceiro, já, que o Leão bota para correr, desde que eu me instalei aqui no bairro.”

“Ele tinha bigode, né?”

“O rapaz? Tinha. Um bigodinho ridículo. Por quê?”

“Nada, não.”

Madame Petruschka concentrou-se de novo nas cartas:

“Estávamos vendo mesmo o quê? Ah, o amor. Olhe, aqui há uma coisa bem interessante.”