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A descoberta –  Descobriste que meus poemas ficam um pouco melhores se é a tristeza que os inspira. Desde o dia da descoberta, me isolaste como se eu fosse um morto que pudesse ainda contaminar-te com suas emanações. Sei que disseste a um amigo comum que fazes isso pensando em minha glória literária. Pois eu te digo que minha glória literária, se fosse possível alcançá-la, nunca valeria um só desses gestos com os quais ajeitas teus cabelos para que o sol se aninhe melhor entre eles.

Poema casamenteiro – Uma glória, a única que tive com a poesia, eu a conquistei lá pelos dezesseis anos. Um amigo do meu bairro, o Jardim da Saúde, tolo e jovem como eu, sabendo que eu andava versejando, pediu que eu escrevesse um poema para a namorada. Eu cometi a infâmia suprema de um acróstico. Ele o levou à amada como se o tivesse feito. Alguns anos depois eles se casaram. De lá para cá, mais nenhuma de minhas iniquidades rimadas teve efeito sequer parecido.

A fama e a glória – A fama, podes gozá-la em vida. Da tua glória nem tu nem teus pósteros te poderão dar notícia.

Autoria – Dizia ter matado um homem outrora e, quando dizia, havia nele algo que reivindicava  essa morte como uma superioridade. Contava e recontava o caso com minúcias de relojoeiro, como se, esquecendo-se de alguma delas, pudesse ver ressuscitado o homem e ser destituído da glória dos disparos.

Melhor assim – Houve tempo em que ele se lamentava por não ter sido Tchekhov, Fitzgerald, Dostoiévski e Nabokov. Pensava na glória literária de cada um deles e suspirava, contrafeito. Hoje ainda se lamenta por não ter sido nenhum dos quatro – não por fama ou glória, mas porque todos eles estão mortos e não padecem mais as calamidades do amor.

O substantivo – Escritor, em si, não é mais do que uma palavra, um substantivo sujeito à opinião de um adjetivo. Glória, fracasso, júbilo e desventura dependem desse adjetivo.

Pó – Se aspiras à glória, deves pensar em como ela deve estar aquecendo agora o coração de Shakespeare.

Agenda – Não aspirar a mais nada. Nem à riqueza, nem à glória, nem ao amor, nem à posteridade. Nem mesmo à paz, pela qual tantos covardes e hipócritas renunciam à riqueza, à glória, ao amor e à posteridade. Reconhecer que a única aspiração legítima, para quem vive, é a morte, e cultivá-la todos os dias, como quem cultiva, dentre todas, a mais preciosa das flores, aquela que só no último dia e ao derradeiro olhar se revelará.

Desilusão – Triste é alguém ter, já no fim da vida, a literatura como única esperança, não mais de glória ou realização, mas de puro, simples, amargo e insuficiente alívio.