Luciana ama novelas.  Aquelas histórias de gêmeas (uma boazinha, a outra má), do rapazinho ultrajado que um dia dará esmolas aos que hoje o humilham, da garota que, apaixonada por George Clooney, no penúltimo capítulo será paquerada por um homem sobre o qual os outros personagens dirão: “Nossa, é a cara do George Clooney.”
Ah, que histórias. Padres que pecam, periguetes que se santificam, deuses que morrem, pobres-diabos que enriquecem, mortos que ressuscitam ao som triunfal de Carlinhos Brown ou Ivete Sangalo. Pode haver quem goste tanto de novela. Mais que Luciana é impossível.
Está casada há seis anos, e há seis anos ouve o marido resmungar que novela é tudo besteira, alienação. Sua resposta é sempre a mesma: se você acha, Maurício, é porque deve ser. Ela a dá sempre com calma, se bem que olhe para o marido como se falasse com um burro falante.
Nos seis anos de casamento, Maurício esteve três vezes desempregado. Está, agora. Se ele fosse protagonista de novela, pensa Luciana, já teria descoberto nas costas o sinal de nascença que o faria herdar uma fortuna ou estaria ganhando milhões com sua frota de caminhões-pipa, distribuindo água pelos condomínios de São Paulo.
Na novela que está acompanhando, Luciana se identifica com uma mulher de vinte e três anos (coincidentemente a idade dela) que, fazendo compras num shopping, recebe um cartão de um homem tremendamente bonito que lhe diz ser dono de uma agência de modelos e gostaria de contratá-la ali mesmo, sem necessidade de teste.
A personagem, imaginando que o convite seja um trote ou uma cantada, devolve o cartão. Pega logo isso de volta, pega, insiste Luciana, levantando-se da poltrona como se fosse entrar na cena, na tevê.
Apesar do empenho de Luciana, a bela mulher se afasta, embora o dono da agência tente segurá-la. Luciana nota agora que ele se parece com George Clooney. Maurício fixa os olhos na cena:
“Só em novela acontece isso. Esse aí parece aquele, como é mesmo?”
“O George Clooney.”
A protagonista da novela se afasta de vez, deixando o homem com o cartão na mão.
“George Clooney não é para qualquer uma”, zomba Maurício.
O capítulo terminou. Luciana desliga a tevê e olha bem para Maurício, para os seus olhos, para o nariz, para a boca. Não, George Clooney não é para qualquer uma.