Era a segunda vez que Marisa, na fila do ônibus, via o gatinho cinza. Era a segunda vez que ele, com tantas pernas ali, escolhia as dela para se esfregar amorosamente e miar com aflição. Como na véspera, ela pegou na mochila um biscoito e o esfarelou:

“Tá com fome, né, meu amorzinho? Come, come.”

Ele se atirou ao biscoito com tanto ímpeto que engasgou.

“Ah, meu pobrezinho”, ela disse, puxando-o para o colo e dando-lhe tapinhas nas costas:

“Eu não tenho  nada para você beber.”

Nesse instante, o gato a olhou mais ternamente do que na tarde anterior, e ela decidiu:

“Vou te levar pra minha casa.”

O ônibus já estava encostando quando Marisa o enfiou na mochila, que deixou entreaberta:

“Vê se não vai morrer sufocado aí.”

Ela passou rapidamente pelo motorista, rezando para que ele não notasse o gato. Ao chegar ao cobrador, pôs-se a cantarolar, porque o gato tinha começado a dar miadinhos.

“Eu também gosto dessa música”, comentou o cobrador, lançando charme. “É bonita como você.”

O ônibus estava lotado. Marisa foi pedindo licença e indo para o fundo. Estava quase chegando lá quando o gato pôs a cabeça fora da mochila e miou alto.

“Que gracinha”, exclamou uma senhora. “É parecido com o meu. A cara do meu Tequinho.”

Assim prestigiado, o gato resolveu miar de novo, mais forte ainda. Estabeleceu-se o alvoroço. Outros passageiros se entusiasmaram:

“Que bonitinho.”

“Ele arranha?”

“Posso pôr a mão?”

O cobrador, investindo-se de autoridade, elevou a voz:

“Ei, pessoal, o que é isso aí?”

“É um gato”, delatou com entusiasmo um menino.

“Gato? Isso eu não permito aqui. Ônibus não é pra gato. É pra gente.”

“Gato é melhor que gente”, contestou alguém, logo aplaudido.

“Se o problema é a passagem, eu pago”, ofereceu um gaiato.

Um senhor empertigado, apoiado pela mulher, emperiquitada, protestou. Lugar de gato era, sim, em casa, não em ônibus. Os dois levaram uma vaia. Nervoso, o senhor puxou uma carteirinha do bolso, disse que ia tomar providências e mandou:

“Motorista, pode ir parando já esta porcaria.”

“Só posso parar em ponto.”

Quando ele parou, desceram dois passageiros e, com eles, oportunamente, Marisa e o gatinho cinza. Ela estava bem perto de casa. Beijando o gato, ia acenando para o ônibus, de onde gritavam:

“Tchau, gatinho.”

“Tchau, gatinha.”