Não adianta. Essas tuas teorias sobre o ciúme, Tica, nunca vão fazer a minha cabeça. Pode me chamar de troglodita, de dinossauro, do que você quiser. Você disse bom dia para o porteiro do colégio hoje? Pronto, eu fiquei enciumado. Sorriu para o professor de história? Pior ainda. E muito pior ainda se você sorriu para a professora de português, aquela que quando te vê estica os “is” do teu nome como se eles fossem pescoços de girafa: oi, Tiiica! Meu ciúme é, como se diz mesmo?, ecumênico, pluralista, sei lá. Ele é amplo, geral e irrestrito. Meu ciúme acolhe novecentos e noventa e nove, mais meia dúzia e meia. Fácil, fácil.
Você diz que eu sou infantil, que quem tem ciúme é porque pensa que é dono das coisas, e que você não é uma coisa. Mas você é, sim, Tica, uma coisa, a mais linda que eu conheço. E é minha, toda minha, eu já falei, não dá para imaginar de outro jeito. Posso dividir tudo: meus cedês da Verônica Sabino, minha coleção do Tintim, as camisas do Timão autografadas. Posso até dar tudo. Mas te dividir, minha Tica, não faço nem por decreto do Obama. Eu sou um troglodita, um dinossauro, você está certa. Sou o cara mais ciumento do mundo, e sabe de uma coisa? Tenho orgulho de ser. Você devia ter também. Meu ciúme é obra tua, Tica.
Por que eu estou dizendo tudo isso que você já está cansada de saber? Porque agorinha mesmo, quando eu abri a gramática que você me emprestou para a prova, pulou de dentro uma foto do Leonardo DiCaprio, recortada de revista. Até aí dava para levar. Mas quando eu vi, em cima da foto, com a tua letra, aquele “Do Leo para a Tica, com amor”, eu mordi a boca.
Não quis nem ver se o certo é eu expludo ou eu explodo. Que se fomentem os verbos e as suas conjugações. Eu não vou aprender nunca, mesmo. Só te digo uma coisa: se esse Leo, Deus o livre, tiver o azar de aparecer na minha frente, eu expludo ele ou eu explodo ele, isso eu te juro.
E arranco a tapa o bigodinho daquele teu outro professor, aquele de não sei o quê, se você sorriu para ele também. Você sorriu, Tica?