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Ele ganha seu dinheirinho fazendo caricaturas na Praça da Sé. Está há três anos nisso, tempo suficiente para se considerar bem-sucedido. Nunca precisou voltar a ser distribuidor de folhetos ou entregador de pizza. Sabe que tem talento e o defende com veemência se o colocam em dúvida. Agora mesmo está explicando a um office-boy, que não se reconheceu no rosto desenhado, que é um caricaturista, não um retratista. Ao garoto, que já pagou mas resmunga alguma coisa, ele pergunta:

“Do que você não gostou?”

O office-boy diz que o queixo não lhe agradou.

“O queixo? Está achando o quê? Que ele está grande?”

O garoto faz que sim, com a cabeça. Ele, pacientemente, justifica:

“Ah, sabe como é. uma caricatura é sempre meio exagerada. Mas você está muito bem, pode crer.”

Outro típico office-boy passa com sua mochila e cumprimenta:

“Oi, Queixinho.”

“Queixinho é a mãe.”

O office-boy de queixo miúdo vai embora, olhando ainda desconfiado a caricatura, e o caricaturista, porque já conseguiu um dinheiro razoável, resolve ir para casa. Alonga o caminho para o ponto do ônibus só para passar diante da loja de calçados femininos e ver a atendente, que fica sempre na entrada, ao lado da vitrine. Todas as vezes ele tem vontade de parar. Mas parar para admirar sapatos de mulher? O que a moça pensaria dele?

Ela parece mais bonita hoje, assim como ontem dava a impressão de estar mais bela que anteontem. Ele para uns passos adiante, numa banca de jornais, e, observando disfarçadamente o rosto amado, se põe a desenhá-lo. É um retratista agora, não o caricaturista. Trabalhando com uma lentidão inabitual, que julga agora necessária à perfeição, termina o perfil. Ele lhe parece tão pessoal, tão íntimo, que resolve não assinar seu nome artístico: Pablo. Escreve o nome real – Paulo Mateus da Conceição – e, com uma dessas coragens que só os apaixonados conhecem, volta para diante da loja e entrega à moça, enrolado, o desenho.

Quando ela, mais espantada que curiosa, se põe a desenrolá-lo, ele olha para o seu nariz e vê que é muito mais gracioso, e também os olhos lhe parecem mais expressivos do que nunca.

Assim que a atendente fixa o olhar no desenho, ele se sente ridículo, diz “olha, amanhã eu te explico tudo, tá bom?”, e sai correndo como um trombadinha, sem notar o sorriso que ela esboça, igual ao que está na cartolina.