Até ontem à tarde, ele quase não acreditava mais que um dia pudesse vir a sentir uma paixão daquelas que os romances e as novelas costumam chamar de avassaladoras. Nos seus vinte e três anos, o máximo que havia acontecido com ele eram faíscas, fagulhas, fogachos, extintos quase no mesmo instante em que nasciam.

Talvez fosse exigente demais, porque as protagonistas dos livros eram todas fascinantes, belas, olímpicas, majestosas. Ele tinha procurado uma assim. Havia encontrado algumas que se aproximavam do modelo, mas, talvez por serem como eram – quase fascinantes, belas, olímpicas, majestosas -, nenhuma o achou digno de atenção: para elas, ele era como um espectador de circo na ópera, mastigando pipocas durante uma ária.

Sempre, ao fazer uma autocrítica, ele se sentia como uma espécie de adorador de estátuas. Era importante a beleza ideal, sem dúvida, mas talvez não essencial para a paixão. Paixão era algo que se definia às vezes por um nariz fora dos padrões, uma pequena cicatriz, uma fealdade e até uma particularidade que, podendo ser considerada um defeito por alguns, era o que acabava atraindo, até a loucura, outros.

Ele tinha lido isso também, nos livros, e andara buscando esse nariz fora dos padrões, essa cicatriz, essa graciosa fealdade, essa particularidade, esse defeito. Queria ser atraído, estava pronto para se deixar enlouquecer.

Ontem à tarde, numa livraria, passando os olhos por uma das estantes, ouviu uma voz que o paralisou:

“Olhem, os livros do Philip Roth estão aqui neste canto.”

Em três ou quatro segundos, pelo seu cérebro e pelo seu sangue correram palavras como seda, veludo, cetim. Ele se sentiu abençoado por estar respirando, por ter vivido vinte e três anos para chegar até aquele instante. Estava enfim diante da particularidade, da sensação única, do inconfundível arrepio que eletrizava o corpo dos personagens dos livros que havia lido.

A voz havia vindo de uma estante às suas costas. Ele se virou lentamente, preparando-se para a grande revelação de sua vida. Viu um grupo de três jovens, nenhuma delas excepcionalmente bela. Estavam em silêncio agora, compenetradas na busca. Ele ficou esperando ouvir a voz que o enfeitiçara.

Sorria em êxtase, como um adorador diante de uma divindade. Fosse de quem fosse a voz, ele sabia: havia chegado o momento. Estava apaixonado – e disposto a jurar isso ali, a uma das três garotas que, talvez porque o jeito dele fosse o de um legítimo apalermado, riam agora um riso no qual ele se esforçou para não identificar chacota ou desdém.