Ela me ama, ele diz, como se alguém o estivesse ouvindo. Está sozinho na sala, com a tevê ligada, um recurso que vem usando para sentir menos a solidão. Ela me ama, ele repete, dessa vez com maior ênfase, como se alguém tivesse posto em dúvida suas palavras.

E, como se fosse um ator ensaiando, diz mais uma vez: ela me ama. Faz uma pausa e pergunta: entendeu?

Se alguém da família o visse agora, como ele poderia negar o que todos vêm dizendo? Essa não é uma atitude de louco? E de chato, também? Faz dois anos que a mulher o deixou, e ele, dia a dia, em todo esse tempo, insiste: ela me ama, ela me ama.

No trabalho, no restaurante, na padaria, quem o conhece vai logo dizendo, quando o vê, para economizar tempo: eu sei, ela te ama.

Depois da separação, viu a mulher só mais duas vezes, para tratarem de pequenos arranjos. Em seguida ela viajou para a Austrália, onde mora hoje com um professor da universidade em que foi estudar.

Nunca mais se falaram, nem trocaram mensagens. Ela levou a sério o que disse: era o fim, o fim mesmo, sem volta. Esses dois anos se passaram, mas ele, quixotesco, ainda diz, como agora, olhando para a tevê: ela me ama.

A tevê não responde. Ele a desliga com raiva. É hora de dormir. Ele faz, então, como último ritual do dia, o que vem fazendo há dois anos. Liga para o primeiro número que lhe ocorre e, quando atendem, diz, com a máxima convicção: ela me ama.