“Quer saber? Eu não gostei muito”, diz Lorena.

“Sério?”, pergunta Tiago, sentindo um daqueles arrepios que vêm sendo a marca registrada de suas conversas com a mulher, nos últimos tempos.

“Claro que eu estou falando sério. E nem precisava falar. Olha aqui isto. Olha.”

Isto é a gatinha que ela segura no colo e que, talvez percebendo o tom de desdém na voz de Lorena, mia desanimadamente.

“Estou olhando. O que é que tem?”

“Olha a cara dela. Você acha bonita?”

“Eu acho. Por isso que eu trouxe. Você disse que queria uma gatinha mais ou menos assim.”

“Bonita? Pode ser. Mas olha aqui esses bigodinhos cafonas. Isto aqui não é bigodinho de gata. Faça-me o favor. Você tem certeza de que não é um gato?”

Tiago sente um arrepio mais forte que o primeiro:

“Ah, Lorena, você não vai querer fazer o que você fez com o Pituco, vai?”

“Calma, meu amor, você anda muito afobado, estressado demais. O que está acontecendo com você?”

“Depois do que você fez ontem, eu…”

“Bom, você não ia querer ficar com aquele cachorrinho mijão aqui, ia?”

“Puxa, mas você não teve paciência nenhuma com ele. Um dia só, Lorena. Como ele ia aprender? Pobre Pituco!”

“Paciência? Se ele tivesse ficado, esta hora nós dois íamos estar nadando aqui dentro.”

“Tudo bem, tudo bem. Mas você não vai me mandar devolver a Cleó também, vai? O que você vai querer desta vez? Um periquito? Meia dúzia de peixinhos dourados?”

Lorena abraçou a gata e começa a enchê-la de beijinhos.

“Trocar a Cleó? Mas nem pensar. Tão fofa que ela é. Não posso achar os bigodinhos cafonas? E foi você quem teve a ideia de que um cachorro ou um gato iam resolver a minha carência. Ah, bobinho, você achava que nós nunca… que nós nunca íamos ter um fi…?”

Tiago vê que os olhos dela se umedeceram e sente também que a voz se altera quando ela diz, com a mão massageando o ventre:

“Eu fiz o teste hoje, tolinho. É, eu fiz. E adivinha!”

Ele e ela se abraçam com tanto ímpeto que a gata, espremida entre os dois, dá um miadinho de susto.