Ela desperta muito zonza, talvez pelo champanhe que tomou sozinha, à meia-noite. É o primeiro Natal que passa assim, sem companhia, e não é à toa que, ainda sentada na cama, juntando ânimo para se levantar, ela murmura:

“Ah, Luísa, ah, Luísa, que maldades você fez com os outros, para afastar todos os parentes e os amigos? Se não fosse o Tinho, como ia ser a sua vida?”

Como se ela tivesse falado alto, o gato desliza do sofá, na sala, e vem enroscar-se nas suas pernas. Ela o acaricia:

“Tinho, Tinho. Você já acordou, meu amor? Vem no colo, vem.”

O gato obedece e acomoda-se nos braços dela, como um bebê. Ronrona amorosamente, parece estar formando frases.

“Tinho, não me diga que você vai contar de novo aquela história. Eu já sei tudinho dela. É muito triste.”

Tinho diz que não, mas retoma sua história preferida, aquela de quando era só um gatinho recém-nascido e amava a sua dona, mas ela ficou com seus dois irmãozinhos e o deu a uma mulher má, tão perversa que ele fugiu e foi parar no abrigo de gatos, onde Luísa tinha ido resgatá-lo.

“Toda vez que você conta isso eu acabo chorando. Olhe. Olhe para mim. Já estou. Ah, seu gato malvado.”

A quentura de Tinho no colo vai espalhando no corpo de Luísa uma gostosa sonolência. Ela o abraça mais forte ainda e torna a deitar-se. Lembra-se de quando foi pegá-lo no abrigo. De como bastou pôr os olhos nele para se apaixonar. Foi em outubro. Outubro… Dois meses atrás. Tinha sido, ela pensa agora, um presente antecipado de Natal.

Essas lembranças acalmam sua tristeza, e ela adormece. Quando acordar, já sabe o que vai fazer: levará o gato até o pinheirinho de plástico, na sala, e tirará uma foto para mostrar aos colegas da imobiliária, quando voltar ao trabalho em 4 de janeiro.

Ela sonha que já está mostrando a foto, e sorri. Tinho parece sorrir também. Talvez em seu sonho esteja revivendo o dia em que viu pela primeira vez o rosto de Luísa.